Quando engravidou, Aline Messias, 36, se perguntava se teria força para segurar o próprio filho. Os comentários de outras pessoas, que questionavam sua capacidade de ser mãe, reforçavam a insegurança. "Quem vai cuidar do seu filho?" e "você acha que consegue dar conta de uma criança?" eram algumas das perguntas que ouvia. Aline tem paralisia cerebral, que afeta seus movimentos e sua fala e faz com que algumas atividades do dia a dia exijam mais planejamento e esforço. Isso não a impediu de viver a maternidade que sonhava. Para cuidar do filho Rafael, 3, reorganizou a casa, adaptou tarefas e aprendeu a identificar situações em que precisa de ajuda. Neste ano, comemorou por ter conseguido levá-lo sozinha ao cinema pela primeira vez. A paralisia cerebral engloba um grupo de condições permanentes provocadas por uma lesão ou alteração no cérebro ainda em formação. Esse dano neurológico pode acontecer de diferentes formas durante a gravidez, na hora do parto ou nos primeiros anos da infância. Na gestação, por exemplo, infecções da mãe como toxoplasmose, rubéola, sífilis e zika podem atravessar a placenta e prejudicar a formação do cérebro do feto. Já no momento do parto, situações de emergência que interrompem bruscamente a oxigenação do bebê —como o descolamento da placenta antes da hora ou nós e compressões no cordão umbilical— são as principais causas de lesão. Nos primeiros anos de vida, a condição pode ser desencadeada por infecções graves que atingem o sistema nervoso, como a meningite, ou pancadas fortes na cabeça. Segundo Anna Dominguez Bohn, pediatra e presidente do Núcleo de Estudos da Criança com Deficiência da SPSP (Sociedade de Pediatria de São Paulo), como a lesão pode atingir diferentes regiões do cérebro e ter diferentes tamanhos, seus efeitos variam muito de uma pessoa para outra. Ela pode causar desde limitações na visão, audição e aprendizado até crises convulsivas. Nesta terça-feira (6), o Dia Mundial da Paralisia Cerebral chama atenção para questões como acesso ao tratamento, inclusão e autonomia. Sinais, diagnóstico e tratamento Os sinais da paralisia cerebral costumam ser percebidos nos primeiros anos de vida e incluem atrasos em etapas do desenvolvimento motor, como sustentar a cabeça, sentar e engatinhar. A criança também pode apresentar músculos muito rígidos ou muito flácidos, fraqueza nos braços ou nas pernas, movimentos involuntários ou dificuldades de equilíbrio e coordenação. Aline diz que seus pais contam que ela era "muito molinha". "Com sete, oito meses de idade, uma criança já começa a sentar sozinha, e eu não conseguia. Meus pais começaram a desconfiar que tinha algum problema e foram atrás de um diagnóstico", afirma. Os sinais variam conforme cada caso e, isoladamente, não confirmam a condição. O diagnóstico considera o histórico da gestação e do parto, o desenvolvimento da criança e a avaliação clínica. Não é possível reverter a lesão neurológica que causa a paralisia cerebral. No entanto, ela não é progressiva —ou seja, o dano não se agrava com o passar do tempo, como ocorre em doenças neurodegenerativas. O tratamento varia conforme as necessidades individuais e, quanto mais cedo começam as intervenções, maiores são as chances de estimular o desenvolvimento e funcionalidade da criança. A reabilitação exige uma abordagem multiprofissional. Dependendo do grau de comprometimento motor e cognitivo, a rotina pode incluir fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia. Também pode envolver consultas com neuropediatras e ortopedistas, acompanhamento visual e auditivo e uso de medicamentos para controlar sintomas como rigidez muscular e convulsões. Segundo o Ministério da Saúde, em 2025 o SUS (Sistema Único de Saúde) realizou mais de 1,1 milhão de atendimentos relacionados à paralisia cerebral. Esse número representa um crescimento de 13% em relação a 2022. Barreiras de acessos Garantir uma rotina contínua de cuidados ainda é um desafio no Brasil. No SUS, a reabilitação especializada é oferecida pela Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência, que inclui 359 CERs (Centros Especializados em Reabilitação). No entanto, estudos apontam que a oferta de serviços e profissionais não é uniforme entre as regiões do país e que a falta de profissionais especializados dificulta o acesso ao acompanhamento. No setor privado, a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) eliminou, em 2022, o limite de sessões de fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e psicologia para planos regulamentados com cobertura ambulatorial. A regra vale para a paralisia cerebral. Isso não significa, porém, que todos os métodos terapêuticos prescritos sejam obrigatoriamente oferecidos pelos planos. Técnicas específicas podem ser objeto de divergência entre famílias e operadoras e, em alguns casos, levar a disputas judiciais. E, mesmo quando o atendimento é oferecido pelo SUS, o cuidado pode gerar custos indiretos para as famílias, como deslocamentos frequentes e gastos com recursos de tecnologia assistiva. Um estudo publicado em 2026, com 1.098 pessoas com paralisia cerebral de todas as regiões do Brasil, mostrou que 44,7% tinham acesso parcial ou nenhum acesso aos dispositivos de auxílio de que necessitavam. Além disso, 67,7% não tinham a casa totalmente adaptada. Soma-se a isso o impacto sobre o trabalho e a renda quando um dos responsáveis precisa reduzir a jornada ou deixar o emprego para se dedicar à rotina de cuidados e consultas da criança. No estudo, 41,1% viviam em famílias com renda mensal inferior a dois salários mínimos. Aline conta que sua mãe teve que deixar o emprego, pois "era muito difícil conciliar o trabalho com a rotina de atendimentos". Ainda na infância, começou a fazer terapias no Sesi Ipiranga, por meio de um desconto obtido pelo vínculo profissional do pai com a indústria. Segundo ela, o tratamento foi "essencial" para desenvolver autonomia e habilidades cotidianas, como amarrar o cadarço e segurar talheres sozinha. Cuidado continua na vida adulta Apesar de a lesão cerebral não ser progressiva, seus efeitos podem mudar com o tempo. Com o envelhecimento, podem surgir dor, rigidez, alterações no equilíbrio e redução da mobilidade, o que exige novas estratégias de cuidado. A passagem dos serviços pediátricos para os serviços de adultos é um dos desafios relatados por pessoas com paralisia cerebral. Estudos apontam dificuldades na continuidade do atendimento, no acesso a profissionais especializados e na adaptação às novas demandas da vida adulta, como saúde sexual e reprodutiva. Esse cuidado deve considerar as necessidades de cada pessoa e oferecer os recursos necessários para que ela participe das decisões sobre a própria vida e tenha autonomia nas atividades do cotidiano. Cuide-se Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar
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