O rio Tietê é um retrato do estado de São Paulo. Nasce na serra do Mar e percorre mais de 1.100 km até desaguar no rio Paraná, atravessando áreas urbanas, agrícolas, industriais e de conservação. É parte da história e da paisagem paulista. Nesta terça-feira (22), Dia do Rio Tietê, não há como negar que, em muitos trechos, sobretudo na capital, o curso d’água ficou marcado pela sujeira e pelo mau cheiro. Essa imagem é real, mas incompleta. O diagnóstico mais recente mostra que os problemas do rio vão muito além da degradação visível: ao longo de todo o percurso foram encontrados microplásticos, agrotóxicos, remédios, drogas ilícitas, metais e sinais persistentes de contaminação microbiológica. O Tietê é um espelho da sociedade às suas margens e carrega em suas águas escolhas acumuladas ao longo do tempo.Os dados vêm da Expedição Tietê, realizada pela Fundação SOS Mata Atlântica com Unifesp, UFABC, Cena/USP e Universidade Municipal de São Caetano do Sul. Entre 9 e 14 de junho de 2025, a equipe percorreu o canal principal do rio, da nascente, em Salesópolis (SP), à foz, em Itapura (SP), com coletas em 14 pontos que representam diferentes formas de ocupação da bacia: áreas preservadas, trechos de urbanização intensa, regiões agrícolas e grandes reservatórios. As amostras passaram por análises microbiológicas, físico-químicas e biogeoquímicas, além da investigação de contaminantes que nem sempre aparecem no monitoramento convencional. O levantamento identificou 25 tipos de agrotóxicos e 16 substâncias entre fármacos e drogas ilícitas, além de microplásticos em todos os pontos avaliados. Nenhum trecho apareceu livre de contaminação. Mesmo na nascente, onde a qualidade da água foi classificada como ótima, foram encontrados traços de alguns dos componentes pesquisados.Isso desmonta duas ideias: a de que a poluição se concentra na região metropolitana de São Paulo e a de que a recuperação do rio depende apenas de saneamento. O esgoto continua no centro do problema. A presença de cafeína, remédios de uso comum e cocaína ao longo do percurso, além da baixa oxigenação em trechos como Guarulhos e Osasco, evidencia a carga de efluentes domésticos. Mas a situação do Tietê também envolve indústria, agricultura, descarte, consumo e uso do solo. Por isso, a resposta precisa ser integrada. Aos municípios cabe garantir coleta e tratamento de esgoto, fiscalização de efluentes domésticos e industriais, gestão adequada dos resíduos sólidos, proteção de nascentes e margens e regulação do uso do solo. Há avanços a reconhecer. Alguns trechos do Tietê apresentam hoje qualidade melhor do que décadas atrás, fruto de investimentos em saneamento e da pressão da sociedade civil.Mas o ritmo atual não basta. A recuperação do rio depende de ações coordenadas entre governos, concessionárias, setor produtivo e população. Um rio que atravessa mais de mil quilômetros e reflete tudo o que acontece ao seu redor só vai mudar quando o que acontece ao seu redor mudar junto. Para o Tietê melhorar, São Paulo precisa mudar. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Para o Tiet� melhorar, S�o Paulo precisa mudar
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