Para n�o perder o direito de n�o gostar

Para n�o perder o direito de n�o gostar

Considero muito ruim o governo Lula (PT). Na política, na ciência e tecnologia e na segurança pública, o desempenho é desastroso. Na educação e na saúde, medíocre. No conjunto, ruim. E com suspeitas que continuam a exigir respostas. A proximidade da eleição não absolve esse governo. Há, porém, uma circunstância decisiva: posso combatê-lo. Posso escrever o que penso, atacar suas escolhas, levantar da cadeira para dizer isso na cara de qualquer ministro. Minha família não precisa entrar no cálculo das consequências. Quem aprendeu do jeito mais difícil o preço de enfrentar uma ditadura sabe o tamanho dessa diferença. É desse lugar que escrevo. Faltam poucos dias para as eleições. Considero mais provável a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), em 4 de outubro ou no segundo turno. Um sujeito com moral de miliciano, disposto a sabotar a democracia, seguindo a tradição da família. Confundir esse risco com mais uma alternância de governo exige uma distração que nenhum democrata tem o direito de cultivar. O grupo Derrubando Muros tem o privilégio de acesso aos principais institutos de pesquisas eleitorais. Conhecemos nuances e correlações que escapam aos leigos. Isso ajuda a saber antes. Mas nenhuma sutileza estatística é condição necessária para reconhecer o intolerável quando ele se apresenta. Nem nos dispensa de fazê-lo. Nem de reagir diante disso. Em 2022, votei em Lula no segundo turno. Nunca havia votado no PT, assim como a maioria dos que fizeram aquela escolha comigo. Foi uma decisão de risco político e reputacional, diante de uma ameaça maior. Não pedi reconhecimento, não negociei contrapartidas, não condicionei o voto. Votei para impedir o pior. Quatro anos de gestão não melhoraram minha avaliação do governo. A do PT, menos ainda. O precipício, o apego à democracia, este cresceu. E eu me pergunto o que farei com minha coleção de críticas corretas se outro da dinastia familiar dos Bolsonaros ocupar a Presidência da República também por minha omissão. Vou apresentar meu muxoxo como prova de coerência? Há tempo para exigir mudança, confrontar e fazer oposição. Há também a hora de separar o que nos desagrada do que pode destruir nossa vida em comum. Família, amigos, valores, democracia: não ponho nada disso na mesa de apostas para preservar o conforto de uma posição. Um governo ruim pode ser enfrentado e substituído. A destruição das instituições que permitem enfrentá-lo cobra outro preço. É aí que passa a fronteira. Para enxergá-la, não preciso gostar de Lula, absolver o PT ou recolher uma única crítica. Preciso distinguir um desempenho medíocre de uma ameaça ao direito de combatê-lo. Levo semanas amadurecendo essa posição. É pessoal, desconfortável e clara. Considero uma obrigação torná-la pública. Quero continuar podendo fazer oposição de cabeça erguida, sem hesitação, sem ter de escolher entre a palavra e a segurança dos meus. Não escolho as circunstâncias em que preciso decidir. Mas respondo pelo que permito por omissão. Prefiro continuar fazendo oposição a um governo ruim a ser impedido de enfrentar o próximo. Meu voto não absolve o governo atual. É uma escolha para impedir que Flávio Bolsonaro chegue ao poder e ameace a liberdade que tenho de dizer o que penso. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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