Para fot�grafo de guerra, profiss�o exige tomada de riscos por conta pr�pria

Para fot�grafo de guerra, profiss�o exige tomada de riscos por conta pr�pria

"As pessoas imaginam que um repórter de guerra vive no limite, em um ambiente de absoluto caos, quase como um combatente. A realidade é bem diferente disso", diz Yan Boechat, jornalista freelancer especializado na cobertura de conflitos. Trabalhar cobrindo conflitos internacionais envolve muito mais planejamento, burocracia e preparo do que costumam mostrar os filmes. Ele conta que a maior parte do trabalho é enfrentar burocracias para conseguir autorizações e organizar a logística até o front. Formado em Jornalismo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Yan ganhou experiência como repórter em jornais brasileiros. "Cometi muitos erros nos meus primeiros trabalhos. O mais marcante foi tentar entrar no Iraque com visto de turista, em 2002", diz. Hoje, aos 52 anos, o carioca vive em São Paulo e já cobriu mais de 15 conflitos, entre guerras no Oriente Médio, a invasão russa da Ucrânia e guerras civis na África. Para ele, o caminho mais viável para começar é ir até o conflito por conta própria, e oferecer reportagens, fotos e vídeos a jornais, revistas e agências de notícias como freelancer. Outra possibilidade é atuar como repórter diarista, contratado por um veículo para uma cobertura específica e remunerado por dia. Segundo Yan, esse tipo de trabalho costuma pagar cerca de US$ 500 por dia. "A melhor maneira de começar de se tornar um jornalista de guerra hoje é ir para a guerra, talvez por conta própria, e começar uma carreira como freelancer" diz Boechat. "Ficar esperando que alguém vai te eleger como correspondente de guerra é cada vez mais uma ilusão." Como há poucos correspondentes de guerra com vínculo fixo, a renda de profissionais especializados em conflitos tende a ser instável. A carreira exige planejamento financeiro e uma reserva para os intervalos entre as viagens. Uma cobertura internacional pode custar cerca de US$ 20 mil, afirma. Por isso, é importante construir uma rede de contatos que ajude a divulgar e vender o material produzido depois da viagem. Yan diz que a atividade é aprendida sobretudo com a prática. No início, as situações tendem a ser mais estressantes mas, com o tempo, o repórter passa a reconhecer sinais de risco iminente com mais facilidade. Antes de ir a uma zona de conflito, segundo ele, também é importante ter experiência na cobertura de notícias e saber identificar boas histórias. Outro elemento essencial são os fixers, profissionais locais que ajudam com o idioma, os deslocamentos, a segurança e o acesso a fontes e autoridades. Questionado se a profissão exige uma espécie de casca emocional, Boechat diz que o repórter aprende a lidar com as situações que presencia, embora as coberturas deixem marcas. Para ele, o papel do jornalista não é interferir nem tomar partido. "Estou ali para ver o que está acontecendo, voltar para casa e contar uma história", diz. O que mais o impressiona é ver como a vida segue em condições adversas. Ele conta que, mesmo em meio à guerra, as pessoas tentam manter alguma normalidade, com encontros em bares e restaurantes, rotinas de trabalho e relações cotidianas. "O jornalismo é uma das poucas profissões que me dá o salvo-conduto para viver realidades que não me pertencem. Isso é o que mais admiro no meu trabalho", diz. Yan também convive com as marcas dessa escolha. Segundo ele, voltar à rotina em São Paulo depois de meses em zonas de guerra pode ser um desafio emocional, porque seus próprios problemas às vezes parecem perder o sentido. Em seu apartamento, ele coleciona objetos que trouxe das viagens. Estátuas de santos decapitadas por grupos radicais no Oriente Médio, placa de carro do Estado Islâmico e destroços de uma bazuca encontrados no Congo contam histórias que viveu. Que trampo é esse? Esta reportagem é o primeiro episódio da série "Que trampo é esse?", do Folhateen, que vai mostrar em vídeos e textos a rotina de profissionais de áreas concorridas e de ocupações menos convencionais. A proposta é apresentar aos jovens diferentes caminhos no mercado de trabalho, com histórias de quem atua na área, informações de serviço e um panorama sobre cada profissão. Nos próximos episódios, a série vai acompanhar outros profissionais para explicar o caminho das pedras de cada trabalho: como começar, quais habilidades são necessárias, que erros marcaram a trajetória e o que fariam diferente se tivessem que recomeçar. Leitores também podem sugerir novas carreiras nos comentários do site e nas redes sociais do FolhaTeen.

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