Para al�m dos Bolsonaros, elei��o de 2026 mostra for�a de cl�s familiares

Para al�m dos Bolsonaros, elei��o de 2026 mostra for�a de cl�s familiares

O resultado do primeiro turno das eleições deste ano mostra que não foi só o clã Bolsonaro que saiu vitorioso. A influência familiar foi determinante em votações majoritárias de outros estados. Em Alagoas, João Henrique Caldas (PSDB), o JHC, se elegeu governador, e a esposa, Marina JHC (PSDB), senadora. A primeira suplente dela é a mãe de João Henrique, Maria Eudócia (PSDB), que está no Senado atualmente, após ter sido eleita como suplente em função da renúncia de Rodrigo Cunha (Podemos) ao cargo em 2024. O pai de JHC, João Caldas, também foi deputado estadual e federal. Ainda em Alagoas, o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP) se elegeu senador e emplacou o filho Alvinho Lira (PP), de apenas 20 anos, como deputado federal. Antes de Arthur, o pai, Benedito, também já havia sido deputado federal. Do estado, também vem uma grande derrota familiar: Renan Calheiros não conseguiu se reeleger senador, e Renan Filho perdeu a disputa para governador. No Amapá, Dr. Furlan (Podemos) se elegeu governador e a esposa, Rayssa Furlan (Podemos), senadora. O cunhado dela, Neto Furlan (Podemos) é o primeiro suplente. A família trava uma disputa intensa com o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União). O senador Eduardo Braga (MDB) se reelegeu pelo Amazonas, com a esposa, Sandra (MDB), como suplente. No Pará, Helder Barbalho (MDB) conseguiu uma das cadeiras no Senado, com o pai, Jader (MDB), como suplente. Ex-governador (1983-1987/1991-1994), assim como Helder (2019-2026), Jader termina seu mandato como senador para ser substituído pelo filho. O outro filho, Jader Filho (MDB), foi eleito deputado federal. Em São Paulo, dois clãs petistas conseguiram eleger representantes no Legislativo: os Tatto e os Zarattini. Os irmãos Jilmar e Nilto foram reeleitos na Câmara dos Deputados. O outro irmão, Ênio, se reelegeu para a Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo). Entre os Zarattini, a dobradinha foi entre Carlos, para mais um mandato na Câmara, e sua sobrinha Luna, que fará sua estreia como deputada federal após ter sido vereadora da capital paulista A família Tatto possui ampla influência na Capela do Socorro, na zona sul da capital paulista, desde a gestão Luiza Erundina (1989-1992). Lá, acumulam imóveis, destinam emendas e angariam votos para o Legislativo. O poderio familiar é tão forte quanto folclórico a ponto de a região ter sido apelidada de "Tattolândia", com seis dos dez irmãos envolvidos na política —um deles, Leonide, foi subprefeito da região. Jilmar, Nilto e Ênio começaram sua trajetória política nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da Igreja Católica. Na última eleição municipal, Arselino, primeiro deles a ocupar uma cadeira no Legislativo, não conseguiu se reeleger após nove mandatos. Mas Jair, outro dos irmãos, teve votos suficientes para mais um mandato. Com Jilmar, a família ganhou projeção nacional. Eleito deputado federal pela primeira vez há 20 anos, ele foi secretário nacional de comunicação do PT e atualmente é vice-presidente nacional da legenda. Jilmar ocupou as secretarias municipais de Abastecimento e Transportes nos governos da ex-prefeita Marta Suplicy (2001-2004); também chefiou a pasta de Transportes na gestão Fernando Haddad (2013-2016). Foi ainda candidato do partido a senador (2018) e a prefeito (2020), ambas sem sucesso. Eleito deputado federal pela primeira vez em 2014, Nilto vinha de uma trajetória diferente dos irmãos, mais ligada a ONGs da área socioambiental, com atuação junto a indígenas e quilombolas na Amazônia e no Vale do Ribeira. Ênio, por sua vez, caminha para o sétimo mandato seguido na Alesp. Outro petista de um clã familiar, o deputado federal Carlos Zarattini foi reeleito para o sexto mandato consecutivo na Câmara. Ele já havia sido vereador e deputado estadual. Na gestão Marta Suplicy, foi secretário de Transportes e, sua esposa, Cida Perez, de Educação. Zarattini terá na bancada a companhia da sobrinha, Luna, que atualmente é vereadora na capital paulista. A história da família na política vem desde Ricardo Zarattini, militante histórico da resistência à ditadura, ex-deputado federal e pai de Carlos e avô de Luna. Ricardo começou a sua vida política ainda nos anos 1950, quando era presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE) e participou da campanha "O petróleo é nosso", durante o governo Getúlio Vargas (1951-1954). EFEITO TRANSFERÊNCIA DE VOTOS As candidaturas familiares se repetem para cargos diferentes. O deputado federal Coronel Telhada (PP) e o deputado estadual Capitão Telhada (PP), ou Telhadinha, conseguiram a recondução ao cargo. O primeiro estava em mandato, mas havia sido suplente na eleição de 2022. Ex-prefeito de Santo André (2017-2025), Paulo Serra (PSDB) conseguiu se eleger deputado federal e sua esposa, Ana Carolina Serra (PSDB), deputada estadual. O casal não tem relação familiar com o ex-governador José Serra. Para a cientista política Tathiana Chicarino, coordenadora do curso de graduação em Sociologia e Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), vários fatores ajudam a explicar o poder das famílias nas urnas. "Existe uma transferência de votos entre alguém que já tem ou teve mandato e seus familiares, mas existem também famílias que exercem conjuntamente a atividade política", diz. Reeleitos no domingo, os deputados federais Baleia Rossi (MDB) e Renata Abreu (Podemos) são presidentes de seus respectivos partidos e filhos de antigos deputados federais. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados Tathiana lembra que a situação se repete com outras profissões, como famílias de médicos ou de artistas, por exemplo. "Muitas vezes, a política já está dentro do espaço de sociabilidade dessas pessoas, que acabam sendo formadas dentro de um ambiente político, com conhecimento dos códigos da atividade", afirma. A pesquisadora cita como espaços mais comuns de formação política, fora do ambiente digital, os movimentos sociais, reivindicatórios e estudantis, os sindicatos e os próprios partidos políticos. E aponta esses ambientes como locais que podem ser frequentados por famílias ou mesmo servir para o início de novas famílias por casamentos. Para ela, mesmo que não usem a relação familiar para se apresentar ao eleitorado, as pessoas ligadas por parentesco acabam tendo melhor espaço e contatos dentro do próprio partido, o que facilita a relação e inclusive o acesso a verbas partidárias. Tathiana destaca que, muitas vezes, a transferência de votos por influência é muito comum de pai para filho e de marido para esposa. "Infelizmente, muitas das mulheres que são eleitas acabam sendo por conta desta herança de votos e não por sua atividade política própria", diz. CLÃS TAMBÉM SOFRERAM DERROTAS Nem todas as famílias acabaram unidas pelo resultado nas urnas. A deputada estadual Carla Morando (PSD) conseguiu se reeleger, mas o seu marido, Orlando Morando (MDB), ex-prefeito de São Bernardo (2017-2025), não conseguiu uma cadeira na Câmara dos Deputados. O presidente estadual do PT, Kiko Celeguim, se reelegeu deputado federal, mas viu o pai, Mario Maurici (PT), não conseguir renovar o mandato na Assembleia Legislativa. Kiko foi prefeito de Franco da Rocha duas vezes nos anos 2010, mesma cidade que o pai havia administrado nos anos 1990. Maurici também foi secretário de Comunicação de Santo André no governo Celso Daniel (1997-2002) e de Governo na gestão João Avamileno (2002-2009). No sentido inverso, o deputado estadual Luiz Fernando (PT) conseguiu a reeleição, mas seu irmão Paulo Teixeira (PT), ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, não conseguiu retomar o mandato de deputado federal. Filho do ex-vereador Milton Leite (União Brasil), preso sob acusação de ligação com o crime organizado, Milton Leite Filho (União Brasil) conseguiu se eleger deputado federal. Seu irmão Alexandre Leite (União Brasil) não conseguiu o mesmo resultado para deputado estadual. Milton foi vereador por sete mandatos e presidiu a Câmara Municipal seis vezes. Alexandre havia sido eleito deputado federal pela primeira vez em 2010 e Milton Leite Filho foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 2006. Irmão da ex-deputada Carla Zambelli (PL), atualmente foragida na Itália, o deputado estadual Bruno Zambelli (PL) conseguiu se reeleger. Já a mãe deles, Rita (PL), não conseguiu o mesmo resultado na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados. Esposa do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), Natália Boulos (PSOL) foi eleita deputada federal pela primeira vez. Para a eleição, ela optou por usar o sobrenome de casada, mas também vem de uma família com trajetória política. Seu pai, Stanislaw Szermeta, foi líder da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo durante a ditadura militar. Stan, como é conhecido, também atuou no PT e na CUT (Central Única dos Trabalhadores) nos anos 1980. Esposa de Ronaldo Caiado, candidato do PSD derrotado no primeiro turno das eleições para a Presidência, Gracinha Caiado foi eleita senadora por Goiás. Ela conheceu o marido nos anos 1980, nas reuniões da UDR (União Democrática Ruralista), da qual era diretora na Bahia. Gracinha se filou há três anos ao União Brasil partido do qual Caiado fazia parte. Regina Nunes (MDB), esposa do prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), também conseguiu se eleger deputada estadual. Na Assembleia, ela se junta a uma bancada de parentes reeleitos, como Bruna Furlan (Republicanos), filha do ex-prefeito de Barueri Rubens Furlan; Analice Fernandes (PSD), esposa do ex-prefeito de Taboão da Serra Fernando Fernandes Filho; e Caio França (PSB), filho do ex-ministro Márcio França (PSB). Para Tathiana, o caso da família Bolsonaro é excepcional em relação aos demais. "Eles transferem votos como se ‘abençoassem’ determinados candidatos, e os familiares são os principais beneficiados desta transferência de eleitorado", diz. Mais novo que o irmão, Renato Bolsonaro (PL) sempre teve um desempenho inferior nas urnas, tendo sido eleito apenas uma vez, em 1996, vereador em Praia Grande, na Baixada Santista, com 834 votos. De lá para cá, Renato acumulou derrotas em eleições para deputado federal, para prefeito e para vereador de diferentes cidades do litoral paulista e do Vale do Ribeira. Desta vez, sem a concorrência do sobrinho Eduardo Bolsonaro (PL), que foi eleito deputado federal nas três eleições anteriores e se mudou para os Estados Unidos durante o último mandato, Renato foi o sexto deputado federal mais votado do estado, com 379.312 votos. Além de Renato, Michelle Bolsonaro (PL), esposa de Jair, foi eleita senadora pelo Distrito Federal. Ela será companheira de Carlos Bolsonaro (PL-SC) na Casa. Jair Renan (PL), filho mais novo do ex-presidente, foi eleito deputado federal por Santa Catarina.

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