Para al�m do supino, veja como diferentes culturas testam a for�a f�sica

Para al�m do supino, veja como diferentes culturas testam a for�a f�sica

"Quanto você levanta no supino?" Há quase meio século, o supino é usado como medida padrão de força em muitas partes do mundo, segundo Conor Heffernan, professor de história dos esportes e da cultura física na Universidade de Ulster, na Irlanda do Norte, e autor de "When Fitness Went Global" (Quando o fitness se tornou global, em tradução livre). "É uma forma abreviada de expressar toda uma concepção cultural de força: potência na parte superior do corpo, masculinidade musculosa, credibilidade na academia e um número que tanto quem levanta pesos quanto quem não levanta consegue entender", diz Heffernan. Mas, em séculos passados, muitos outros testes de força tinham um caráter mais prático: as comunidades precisavam identificar e treinar seus integrantes mais aptos para o serviço militar ou para o trabalho. "Alguns testes de força eram simplesmente entrevistas de emprego", afirma Heffernan. Muitos desses testes continuam sendo praticados ao redor do mundo, e alguns são mais acessíveis do que levantar pesos na academia. Os equipamentos muitas vezes estão disponíveis ao público em parques ou na natureza e, às vezes, tudo o que é necessário é o próprio corpo ou um adversário. Mallakhamb Pense na postura de ioga mais desafiadora que você já conseguiu manter. Agora imagine tentar fazê-la no alto de um poste liso de madeira, com 25 centímetros de largura e 2,4 metros de altura, polido com óleo, e você terá uma ideia do que é o mallakhamb, um esporte ancestral da Índia que combina ioga, ginástica e artes marciais. "O mallakhamb é um esporte em que é preciso lutar contra a gravidade", diz Ravi Gaikwad, treinador e fundador da Mallakhamb India, organização que ensina e promove a modalidade.Às vezes chamado de "a mãe de todos os esportes indianos", o mallakhamb testa a força de pegada, a resistência do corpo inteiro e o equilíbrio, e já foi usado como método de treinamento para soldados e lutadores. Ele trabalha o corpo "da cabeça aos pés", afirma Abhishek Prasad, 26, atleta de mallakhamb em Mumbai. Em uma competição de mallakhamb, os atletas têm 90 segundos para se apresentar. Eles são avaliados em cinco categorias, que incluem proezas acrobáticas e posturas executadas no poste, a capacidade de agarrá-lo após realizar uma manobra no ar e o equilíbrio durante posturas estáticas. Os atletas podem competir individualmente ou em equipe, com várias pessoas no poste ao mesmo tempo. O esporte faz parte do currículo de muitas escolas. Vinayak Dhamne, 40, ex-atleta, conheceu a modalidade aos 14 anos, quando era estudante. O mallakhamb não é para qualquer um, segundo Dhamne. "Você fica com assaduras. Às vezes, queima as pernas." As provas pesadas dos Highland Games De maio a setembro, é temporada dos Highland Games na Escócia, quando gaiteiros, dançarinos, corredores, ciclistas e atletas de força se reúnem para participar de uma tradição de mil anos. Mais de 60 edições anuais dos Highland Games são realizadas em toda a Escócia. As chamadas "provas pesadas" são uma das principais atrações. As modalidades mais famosas são o lançamento do martelo e o arremesso de tronco, no qual os atletas lançam uma longa tora de madeira, que pode pesar até 79 quilos, para que ela dê uma volta completa no ar. Dependendo da competição, os participantes também podem ter de lançar uma pedra de 9 a 12 quilos, arremessar para trás um bloco de metal de 25 quilos por cima de uma barra elevada ou usar um forcado para lançar um saco de aniagem cheio de palha. Qualquer pessoa pode participar dos jogos, independentemente do nível de habilidade ou força, mas os competidores costumam passar meses treinando, afirma Elizabeth Elliot, 46, que mora perto de Glasgow e compete há 20 anos. Segundo ela, muitos atletas passam o período fora da temporada na academia, desenvolvendo potência e resistência. O domínio técnico também é importante. "Você pode ser muito forte e conseguir erguer um tronco", diz Elliot, "mas talvez não consiga fazer nada com ele". Luta de braço A luta de braço talvez seja uma das maneiras mais simples de resolver uma discussão sobre força. "É só ir até a mesa e puxar", afirma Charles Osei Asibey, presidente da Federação Africana de Luta de Braço. Tornar-se um competidor de luta de braço exige um pouco mais de trabalho. Grace Minta, 41, que em 2024 se tornou a primeira mulher africana a conquistar uma medalha de ouro no Campeonato Mundial de Luta de Braço, treina com halteres para fortalecer os punhos e os ombros, faz agachamentos para desenvolver a força da parte inferior do corpo e corre para ganhar resistência. Minta integra a seleção de Gana, a Golden Arms. Ela faz parte de um número crescente de atletas ganeses que se especializam em luta de braço competitiva, segundo Asibey. A modalidade é um passatempo que há muito faz parte da cultura do país e do continente e era frequentemente usada para decidir quem era a pessoa mais forte da comunidade ou da escola, acrescentou. A luta de braço "não tem um local de origem estabelecido", diz Heffernan, e versões da prática existem há séculos em várias partes do mundo, como América do Norte, Leste Europeu, Japão e Brasil. Em maio, Gana sediou o Campeonato da Federação Africana de Luta de Braço, com 450 atletas de 22 países. A equipe ganesa ficou em primeiro lugar. Levantamento de pedras Quando Yuta Sakamoto quer desenvolver força, ele não vai à academia. Em vez disso, dirige-se ao santuário local. Lá, escolhe uma chikara ishi, ou "pedra da força", que pesa cerca de 90 quilos, ergue-a do chão e a leva até o ombro. Para Sakamoto, a prática tem menos a ver com entrar em forma e mais com se reconectar a uma tradição cultural há muito esquecida. O levantamento de pedras é usado como medida de força em todo o mundo há milhares de anos. No Japão, as pedras eram erguidas em rituais comunitários, cerimônias religiosas e demonstrações de força por todo tipo de pessoa, de samurais a trabalhadores braçais, diz Sakamoto. Há cerca de 200 anos, a capacidade de levantar uma pedra de 60 quilos —aproximadamente o peso de um fardo de arroz— muitas vezes determinava se alguém era forte o suficiente para realizar trabalho braçal. O levantamento de pedras foi uma parte importante da cultura japonesa, mas, após a Revolução Industrial, a prática praticamente desapareceu da vida cotidiana, diz David Dunlap, diretor da Tenka Musou, federação internacional japonesa de strongman. Segundo Dunlap, milhares de pedras de levantamento hoje permanecem praticamente esquecidas em santuários por todo o Japão. Muitas trazem gravados os nomes dos homens que conseguiram erguê-las. A Tenka Musou realiza competições anuais de força no Japão para ajudar a preservar as tradições do levantamento de pedras. No evento deste ano, realizado em março, cerca de 70 atletas de 12 países ergueram pedras com pesos que variavam de aproximadamente 34 a 159 quilos.

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