O Palacete São Paulo, localizado na praça da Sé, marco zero da cidade, tem uma história gloriosa. Projetado pelo arquiteto Nestor Caiuby em estilo eclético e com uma fachada ornamentada, bem ao gosto da elite do começo do século passado, ele abrigou, entre 1924 e 1925, os escritórios da Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato. Foi uma grande casa editorial brasileira em seu tempo e coroou o trabalho de massificação da venda de livros que o escritor vinha fazendo desde 1918. A empresa de Monteiro Lobato (1882-1948) teve vida curta por dois eventos extremamente nocivos para os negócios na cidade na época: a revolução de 1924, conflito armado que impediu o funcionamento de centenas de indústrias e pontos comerciais, e a grande seca, que esvaziou reservatórios e impôs o racionamento de água e energia elétrica, reduzindo, inclusive, a circulação de bondes. Diante desse quadro, Lobato e seu sócio, o jurista Waldemar Ferreira, declararam autofalência. Enquanto sobreviveu, porém, a editora rendeu ótimos frutos. Saíram de sua gráfica na rua Brigadeiro Machado, no bairro do Brás, várias obras de Lobato, como "Contos Escolhidos" e "O Noivado de Narizinho", que depois integrou as "Reinações de Narizinho", em 1931, traduções como "Robinson Crusoé", de Daniel Defoe, e "Minha Vida e Minha Obra", de Henry Ford, e livros nacionais como "Paulística: História de São Paulo", de Paulo Prado. A Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato é a evolução de dois outros empreendimentos do escritor, a Edições da Revista do Brasil, criada em 1918 com dinheiro que ele obteve vendendo a fazenda Buquira, herdada de seu bisavô, e a Monteiro Lobato & Cia, de 1920, erguida em sociedade com Octalles Marcondes Ferreira. Nesse mesmo ano, o escritor lançou seu primeiro livro infantil, "A Menina do Narizinho Arrebitado". Em 1921 foi a vez de "O Saci". Nas suas iniciativas editoriais, o escritor colocou em funcionamento a sua "grande máquina de vender livros", que consistia em uma rede de mais de mil estabelecimentos comerciais em todo o Brasil, até no Acre, incluindo, além de livrarias, armarinhos, açougues e quitandas. Dessa forma, conseguiu popularizar um produto que até então estava restrito a um público elitizado de grandes centros urbanos. Quando a Companhia Gráfico-Editora faliu, Octalles convidou Lobato para criar um novo projeto, a Companhia Editora Nacional, cujo livro de estreia foi "Meu Cativeiro entre os Selvagens do Brasil", de Hans Staden. O escritor dirigia o escritório do Rio de Janeiro e Octalles ficava em São Paulo, num endereço na rua dos Gusmões, no bairro de Santa Ifigênia. A sociedade durou até 1929, quando a crise econômica causada pelo crash da Bolsa de Nova York fez Lobato vender sua participação para cobrir as perdas financeiras e assumir o cargo de adido comercial do Brasil em Nova York. A partir daí passou a trabalhar para a editora apenas como escritor e tradutor. Foi nessa fase que lançou o título "O Picapau Amarelo". O tenente-coronel Felício de Campos Cintra, antigo dono do imóvel, morreu em 1946 sem deixar herdeiros. O Palacete São Paulo passou, então, para o governo paulista, que instalou ali a Secretaria da Educação. O prédio passou em seguida por um período de abandono. Em 1978, a Unesp (Universidade Estadual Paulista) transferiu sua administração para o palacete. Hoje, mantendo sua vocação cultural, o edifício, com oito pavimentos e 4.000 m², abriga a livraria da Unesp no térreo e o Ippri (Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais), no 3º e no 4º andar. A memória da Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato resiste, porém, em uma placa comemorativa colocada pelo DPH (Departamento do Patrimônio Histórico) no térreo do edifício. O detalhe nos faz pensar em uma frase lapidar do escritor: "Um país se faz com homens e livros". LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Palacete S�o Paulo abrigou m�quina editorial de Monteiro Lobato
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