'Ovelhas Desgarradas', de Madeline Cash, pode ser o romance do ano

'Ovelhas Desgarradas', de Madeline Cash, pode ser o romance do ano

A nova sensação literária, que acaba de ser publicada pela editora Amarcord, em tradução engenhosa de Camila von Holdefer, é "Ovelhas Desgarradas", de Madeline Cash. Perdoe o clichê, mas como chamar uma autora de 29 anos, com um romance de estreia que recebeu elogios dos pilares do establishment literário dos Estados Unidos, The Atlantic e The New York Times, mas que igualmente brilhou no clube do livro da Dua Lipa? Foi nessa conversa com a cantora, aliás, que Cash deu a letra: "Esse é um romance maximalista e absurdo. Ainda bem que ninguém está me acusando de ser sutil". Em "Ovelhas Desgarradas" abundam personagens excêntricos e subtramas doidas, à moda de um Thomas Pynchon, mas a sensibilidade de Cash para núcleos de pessoas brilhantes, engraçadas, emocionalmente frágeis, no auge de crises existenciais profundas, remete a outro autor do pós-modernismo literário: David Foster Wallace. Não parece acidental que, em uma de suas entrevistas, um repórter tenha notado em sua estante uma edição de "Graça Infinita", cheia de adesivos da Hello Kitty. O tipo de comentário camp, a um só tempo erudito e pop, típico do humor da autora. O livro de Cash é ambientado em um subúrbio não nomeado dos Estados Unidos e se concentra nas desventuras vividas pela família Flynn: Bud e Catherine, pai e mãe de três meninas incomuns e astutas; Harper, a caçula; Abigail, a mais velha; e Louise, a do meio. No início da história descobrimos que o casal está no meio de uma crise matrimonial. Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias Catherine propõe ao marido que abram o relacionamento, o que ocorre, sob protestos de Bud, que passa a dormir em sua minivan. Catherine se envolve com Jim Doherty, seu vizinho artista plástico, que tem situação financeira melhor e, pelo menos a princípio, incentiva a sua vocação artística, até então adormecida num casamento morno e burocrático. Louise namora online um sujeito que nunca conheceu pessoalmente e que tenta convertê-la ao islamismo radical. Abigail é a mais bonita das filhas e, desde muito nova, recebe os olhares e a atenção indesejada de homens mais velhos. Se "Ovelhas Desgarradas" é como um episódio de "Os Simpsons" escrito por Wes Anderson, Harper é a mistura de Lisa Simpson com Margot Tenenbaum. Como alguém a define no livro, é "inteligente demais para o próprio bem". É a autodidata que aprende latim apenas porque sim, além de uma investigadora brilhante, ainda que diletante. É meio Nancy Drew, a personagem detetive adolescente dos anos 1930 criada por Edward Stratemeyer. "Ovelhas Desgarradas" também tem algo de "Buffy, a Caça-Vampiros". Tanto o livro de Cash quanto a série de Joss Whedon têm em comum, além do humor pulp e a agilidade, personagens femininas destemidas e o mesmo gosto por brincar com clichês. Na entrevista com Dua Lipa, a autora falou que concebeu cada personagem como um arquétipo, apenas para, na sequência, subvertê-los um a um. No romance, quase nada é o que parece, e a primeira impressão é só uma escadinha que vai dar num labirinto intrincado e estranho, ainda que sempre divertido. O livro de Cash também lembra as aventuras do Padre Brown, o detetive criado por G.K. Chesterton, um personagem que solucionava mistérios não com deduções e inferências, as ferramentas iluministas de Sir Arthur Conan Doyle na saga de Sherlock Holmes, mas com reflexões existenciais e filosóficas sobre a natureza humana, sempre de base teológica católica, bem entendido. "Ovelhas Desgarradas", a propósito, é um romance católico, não se espante, ainda que heterodoxo. Quer dizer, não é careta, tampouco tradicionalista. É uma obra escrita por uma autora "gen Z" e hipster, com um senso de humor pós-moderno. Ao mesmo tempo, é um livro que reivindica um catolicismo popular e de base, em oposição à sua versão elitista e reacionária, adotada por oligarcas e "tech bros". Cash apresenta personagens que creem em teorias da conspiração, apenas pela ênfase no verbo "crer". As teorias de Harper são amalucadas e têm lá seu elemento de ridículo, mas são um antídoto contra o cinismo: são uma busca genuína, de peito aberto, pela verdade com "v" maiúsculo e por algum sentido de transcendência. São um salto de fé e um mergulho existencial num mundo desencantado, mas em que a graça pode estar pertinho, escondida a poucos passos de distância.

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