Os vencedores e os perdedores da economia dos medicamentos para emagrecer

Os vencedores e os perdedores da economia dos medicamentos para emagrecer

Londres e Nova York |Financial Times Clientes de tamanhos grandes e altos são a base do negócio de ternos sob medida de Alan Horowitz há 25 anos. Mas, à medida que os medicamentos para emagrecer se espalharam pelos Estados Unidos — tornando-se tão comuns que um em cada dez americanos já os utiliza —, ele perdeu clientes. Agora, a empresa familiar de quinta geração, a Alan David Custom, também sofre com seu compromisso de oferecer ajustes gratuitos por toda a vida. "As oscilações bruscas de peso [...] se tornaram um pesadelo para a alfaiataria", diz Horowitz, que estima que os medicamentos reduziram sua receita em cerca de 10% a 12%. Uma cartela contendo comprimidos de Wegovy (semaglutida) em uma linha de produção nas instalações da Novo Nordisk, na Dinamarca - Tom Little - 29.set.26/Reuters Desde que o Wegovy foi aprovado pela FDA para o controle crônico do peso, em 2021, os medicamentos conhecidos como GLP-1 dispararam em popularidade. Em junho, cerca de 38 milhões de pessoas nos Estados Unidos os utilizavam ativamente, segundo a Gallup. No Reino Unido, a PwC estima que aproximadamente 5% dos adultos tomam esses medicamentos. Essas pessoas estão mudando o que comem, fazem e compram. Para alguns setores, como academias e suplementos de saúde, os GLP-1 estão atraindo novos clientes. Outros precisam repensar seus fundamentos: entre os usuários, a moderação se tornou um argumento de venda, e empresas tentam proteger suas margens oferecendo quantidades menores pelo mesmo preço —ou até por um preço maior. Mais de 200 companhias de capital aberto de fora do setor de saúde mencionaram os medicamentos emagrecedores em teleconferências de resultados nos três meses encerrados em setembro, mais que o dobro do registrado no mesmo período do ano passado. Algumas, como Pepsi, Domino's Pizza e Texas Roadhouse, citam o impacto sobre a alimentação como possível risco. A expectativa é que o uso continue crescendo, com comprimidos, queda nos custos e versões genéricas quando as patentes da semaglutida expirarem, no início dos anos 2030. Segundo analistas, os medicamentos fazem parte de uma mudança mais ampla e aparentemente permanente no comportamento do consumidor, cada vez mais focado na saúde. Para algumas marcas e setores, será uma questão de se adaptar ou desaparecer. Outros já se beneficiam da chegada de novos clientes. OS VENCEDORES DO EMAGRECIMENTO: ACADEMIAS Houve um aumento de 36% na frequência de exercícios cardiovasculares entre usuários de GLP-1 nos EUA, segundo relatório da PwC. Alex Wood, presidente-executivo da PureGym, diz que sua equipe "passou muito tempo" preocupada com a possibilidade de os medicamentos levarem as pessoas a deixar de frequentar as academias. Agora, está otimista: como os usuários podem perder rapidamente massa muscular e densidade óssea, os tratamentos os incentivam a recorrer à musculação. Uma pesquisa da PwC no Reino Unido constatou que 27% dos usuários pretendiam aumentar os gastos com atividades físicas, e apenas 5% planejavam reduzi-los. As maiores redes passaram a destinar mais espaço ao treinamento de força. A parceria da Planet Fitness com a Ro, empresa de telemedicina que prescreve GLP-1, foi "um dos nossos benefícios mais bem-sucedidos e mais utilizados", disse a presidente-executiva da rede. SAÚDE E BELEZA Aumento de 20% nos gastos de usuários de GLP-1 nos EUA com suplementos de colágeno. As despesas com suplementos para cabelo e unhas subiram 16%. Uma pesquisa do Boston Consulting Group constatou que quem usa os medicamentos gasta 20% mais com suplementos, principalmente proteínas, fibras e colágeno. Grupos de beleza também se beneficiam: a Galderma registrou forte aumento na demanda por seus injetáveis contra a flacidez facial, e a L'Oréal desenvolve séruns e tratamentos contra a flacidez da pele e a queda de cabelo. COMPANHIAS AÉREAS Economia anual de US$ 580 milhões (R$ 3,1 bilhões) potencial caso o peso dos passageiros caia 10% nas quatro maiores companhias aéreas dos EUA. As companhias aéreas fazem esforços extraordinários para reduzir o peso das aeronaves, já que o combustível de aviação é o maior custo individual das empresas. Mas qualquer tentativa de controlar o peso dos próprios passageiros tem provocado indignação. Isso pode mudar. Em janeiro, Sheila Kahyaoglu, do Jefferies, calculou que uma redução média de 10% no peso dos passageiros de um Boeing 737 Max 8 diminuiria em 2% o peso da aeronave na decolagem. Para as quatro maiores companhias dos Estados Unidos, a economia combinada poderia chegar a cerca de US$ 580 milhões (R$ 3,1 bilhões) por ano. Mas ela pode ser compensada pela perda de vendas de lanches e bebidas, e o peso economizado pode ser usado para transportar mais carga, altamente lucrativa. OS PERDEDORES DO EMAGRECIMENTO: ALIMENTOS INDUSTRIALIZADOS 61% é o percentual de usuários de GLP-1 nos EUA que reduziram os gastos com lanches açucarados, segundo pesquisa da PwC. Outros 9% eliminaram esses produtos completamente. Muitos usuários perdem a vontade de beliscar entre as refeições e têm dificuldade para digerir alimentos gordurosos. Nos primeiros seis meses de uso, os consumidores gastaram 9% menos com produtos de confeitaria doce e 11% menos com salgadinhos, segundo um estudo da Universidade Cornell e da Numerator. Algumas empresas tentam preservar seus resultados promovendo produtos premium, que permitem cobrar preços mais altos — o que o consultor Toby Clark, da Mintel, chamou de "menos, mas melhor". A Magnum Ice Cream Company, por exemplo, concentra esforços em porções pequenas e em produtos enriquecidos com proteínas. Um dos poucos vencedores no setor é o iogurte rico em proteínas, cujas vendas nos Estados Unidos cresceram 6,7% em agosto. BEBIDAS Queda de 2% na compra de bebidas destiladas por usuários de medicamentos GLP-1, segundo a Diageo. Há divergências sobre se os GLP-1 provocarão uma queda significativa no consumo de álcool. Segundo o estudo da Cornell, nos primeiros seis meses de uso, as despesas com álcool caíram apenas 1%, ante uma redução de 5,3% nos gastos com todos os produtos de supermercado. A Diageo, maior produtora mundial de destilados, minimizou o impacto: segundo a empresa, os usuários gastam apenas 2% menos com destilados, 4% menos com cerveja e 5% menos com vinho, e pelo menos 50% deles ainda frequentam pubs ou bares ao menos uma vez por semana. "Às vezes as pessoas criam ocasiões para sair. Querem mostrar seu progresso", disse a diretora de estratégia, Hannah Brooks. RESTAURANTES E ALIMENTAÇÃO FORA DE CASA Queda de 22% nos gastos de usuários de GLP-1 com pizza em redes de fast-food e restaurantes de serviço limitado nos EUA, segundo relatório da PwC. As redes de fast-food estão entre as mais afetadas. Pesquisadores da Cornell constataram uma queda de 8% nos gastos nesses estabelecimentos depois que ao menos um integrante da família começou a usar GLP-1. A Domino's Pizza informou crescimento das vendas abaixo da inflação no trimestre encerrado em setembro, à medida que os clientes passaram a comprar menos itens por pedido. A empresa atribuiu o resultado à pressão econômica, mas o analista do Citi Jon Tower afirma que os GLP-1 provavelmente tiveram alguma influência. A McDonald's está reformulando seu cardápio, com tigelas de proteínas, frango grelhado e pequenas porções de ovos, e o KFC lançou porções menores, a partir de US$ 3,49. Até agora, os GLP-1 afetaram mais as "ocasiões de consumo individual" do que as saídas sociais: serviços de entrega e fast-food sofreram o impacto maior, enquanto restaurantes com serviço à mesa foram menos afetados. Os que oferecem porções menores podem enfrentar pressão para manter ou elevar os preços, mas precisarão evitar acusações de shrinkflation, prática de reduzir a quantidade de um produto sem baixar seu preço. Os clientes "esperam, com razão, pagar menos", diz o consultor Daniel Angerer. MODA 26% dos usuários americanos de GLP-1 afirmam gastar mais com roupas, segundo relatório da PwC. Quase 75% dos usuários ativos relatam uma "mudança significativa" no tamanho das roupas, segundo a PwC. Lojas especializadas em tamanhos extragrandes estão entre as mais expostas: o presidente-executivo da Macy's disse em setembro que "o negócio de tamanhos grandes está muito fraco, enquanto a maioria das outras áreas do vestuário está saudável". Por outro lado, a PwC estima que os medicamentos terão um dos efeitos mais positivos sobre os gastos com vestuário, pois quem emagrece muitas vezes passa a "se presentear com marcas de maior qualidade e mais caras". Horowitz acompanhou de perto essas oscilações. "Vemos muitos clientes que vão na direção oposta [depois de usá-los] e ficam chateados porque engordam novamente e já trouxeram o terno para ajustes", diz. Os noivos se tornaram particularmente imprevisíveis: no passado, os alfaiates cortavam os ternos em tamanhos menores para compensar a perda de peso antes do casamento; agora, precisam confeccionar peças provisórias entre as provas. "De repente, o cara que nunca subiu em uma bicicleta começa a se exercitar. Ele pode vir em 1º de março pesando 99 kg e voltar em 1º de abril com 86 kg", diz Horowitz. "Isso custa muito dinheiro."

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