Consentimento! À sombra de uma palavra, a civilização vai perdendo o juízo. Duas notícias, na mesma semana, oferecem um retrato do manicômio. Na Escócia, o museu Kelvingrove removeu de exposição o corpo mumificado do sacerdote Nekht. Já o museu Hunterian optou por cobrir a múmia de Lady Shep-En-Hor com um véu. Por uma questão de pudor. As múmias, ao que parece, não deram o seu "consentimento informado" para serem expostas em público. É natural. Quando Nekht foi sepultado, milhares de anos atrás, suspeito que o "consentimento informado" ainda não tinha feito carreira na burocracia egípcia. Os problemas eram mais rasteiros, como as cheias do Nilo e a eternidade. Fato: não sabemos se Nekht gostaria de ser exposto num museu. Mas será que preferiria passar a eternidade num depósito de Glasgow, cidade conhecida por uma umidade atroz? Se as múmias pudessem falar, talvez não se importassem com as vitrines. Afinal, é uma forma de permanecerem na memória dos vivos, a suprema ambição da turma. Não vão permanecer. Nekht descerá aos porões do museu, longe de olhares curiosos, entregue à penumbra e ao inventário. Lady Shep-En-Hor, com seu véu, terá direito a uma mumificação sobre a mumificação, por uma questão de privacidade. Há apetites do turista ocasional que devem ser cuidadosamente evitados. Agora que penso nisso, é uma curiosa evolução: conta o historiador Heródoto que, no Egito Antigo, o corpo de uma mulher bela ou de boa família só era entregue ao embalsamador quando já dava sinais de putrefação. Não fossem os profissionais perder a compostura. Hoje, 25 séculos depois, a senhora continua sob vigilância. Mudou apenas o suspeito: já não é o embalsamador, mas o visitante de celular na mão. Ao lado, na Irlanda, a loucura não se ocupa de mortos milenares; ocupa-se de crianças contemporâneas. Um filme publicitário de uma ONG de apoio a vítimas de estupro lembra aos avós irlandeses que os netos nem sempre consentem em ser abraçados. Desconfio que os avós sempre souberam como lidar com isso. Exatamente como os netos, que também sabem expressar seu repúdio, fugindo alegremente dos amassos. Seja como for, as duas notícias têm uma simetria quase perfeita: em ambos os casos, o consentimento é elevado à categoria de problema metafísico. As múmias não podem dá-lo, porque estão mortas; as crianças o manifestam à sua maneira, porque estão vivas. Moral da história? O problema está nos adultos. Na forma como projetam suas obsessões e fantasmas por meio da linguagem neutra da burocracia. Nas múmias, projeta-se a culpa colonial de quem, depois de ter se apropriado dos mortos alheios, se arroga agora o direito de decidir o que lhes convém. É uma nova forma de colonialismo –o colonialismo dos bons sentimentos– que nem sequer se deu ao trabalho de consultar os egípcios vivos. Mal por mal, seria preferível devolver as múmias ao Egito e permitir que os museus do Cairo as exibissem, como efetivamente fazem, sem os pudores ridículos dos ocidentais. Nas crianças, projeta-se algo de pior: o medo paranoico do abuso, como se houvesse em cada avô um predador em potencial. A mesma época que tem tanto medo de ofender as múmias não hesita em ofender os mais velhos. Que, por sua vez, só serão respeitados depois de mortos –e, de preferência, mumificados. É por essas e outras que já pensei no meu "consentimento informado". Família e amigos sabem do meu horror aos vermes da terra, roendo "as frias carnes do meu cadáver". Sim, também li o meu Machado. Minha simpatia vai para o empalhamento, como aconteceu com o filósofo Jeremy Bentham, que o pediu em testamento. E assim foi: dois séculos depois, sentado e devidamente acolchoado, podemos vê-lo numa vitrine do University College de Londres. Só a cabeça é de cera, porque a outra, a verdadeira, mal conservada, está guardada a sete chaves, depois de ter sido roubada pelos estudantes. Eu prefiro uma posição mais horizontal: na cama, de roupão, lendo o jornal e sorrindo com as notícias das múmias escocesas. Desde já informo que proíbo qualquer véu, por mais pudico que seja o curador, e agradeço que nenhum estudante se aproxime da minha cabeça, especialmente se tiver sido meu aluno. Autorizo abraços dos avós aos netos na minha presença. Colada à vitrine, a legenda para os visitantes do século 25: "Português adulto em repouso, século 21. Exposto com o seu consentimento." Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Os velhos s� ser�o respeitados depois de mortos e mumificados
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