É curioso que os sertanejos não estejam em evidência nesta eleição presidencial ao lado de seus candidatos favoritos. Quem acompanhou o posicionamento político de boa parte dos artistas do sertão nos últimos anos há de se lembrar de alguns momentos-chave do apoio declarado de alguns deles. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha O cantor Eduardo Costa foi o mais enfático apoiador bolsonarista em 2018. Quando o ex-capitão foi eleito, o cantor pulou na piscina de sua casa aos berros, empolgado com a vitória. Desiludido com a política, em 2021 ele gravou a música "Cuidado", uma crítica contundente ao governo na pandemia: "Cuidado que eles passam/ só de quatro em quatro anos/ Depois o povo morre/ em corredor de hospital". Na semana da independência de 2021, o cantor Sérgio Reis pediu o fechamento do STF e defendeu uma greve de caminhoneiros com finalidade golpista. Reis acabou se tornando alvo de operação da Polícia Federal autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes. Em abril deste ano, ele se filiou ao DC (Democracia Cristã) para tentar uma vaga ao Senado. No entanto, sua candidatura não foi homologada. O DC tem candidato próprio à presidente, a desconhecida Clariana Barão, o que colocou Reis numa sinuca. Como apoiar Bolsonaro se seu partido tem candidato próprio? Serjão preferiu o silêncio. Em 17 de outubro de 2022 vários sertanejos visitaram o então presidente Jair Bolsonaro para demonstrar apoio. Liderados por Gusttavo Lima, artistas de peso como Chitãozinho, Zezé Di Camargo, Fernando, Marrone, Leonardo, Sula Miranda e o locutor Cuiabano Lima estiveram no Palácio do Alvorada. Era de se esperar que os sertanejos estivessem empolgados com a campanha de Flávio Bolsonaro em 2026. Não é o que acontece. Há um curioso marasmo entre os artistas do sertão, que andam medindo com muito cuidado seu apoio. O que nos leva a perguntar: os sertanejos são de fato bolsonaristas? Também entre os sertanejos, como em toda sociedade, ninguém está empolgado com o repeteco de candidatos polarizados. Parece haver um desejo de alternativa política que, paradoxalmente, não se concretiza. Muitos dizem que o sucesso dos sertanejos é fruto direto do agronegócio. Neste ano há uma candidatura que representa diretamente os desejos do agro: Ronaldo Caiado. No entanto, o goiano não decola nas pesquisas. O cantor Gusttavo Lima, que tinha sido sondado por Caiado para se filiar ao seu partido e formar chapa presidencial com o governador de Goiás, pouco dá as caras na campanha. É claro que a música sertaneja e o agronegócio têm muitas sintonias. Mas não se pode reduzir um ao outro. Esse é um erro que muitos progressistas fazem, o que atrapalha a correta análise conjuntural da cultura brasileira, especialmente da música sertaneja. Quando houve aquela visita de sertanejos a Bolsonaro em 2022, chamei atenção para a ausência de pares das duplas. Chitãozinho foi, mas Xororó não. Zezé foi sem a companhia de Luciano. Fernando foi, mas não levou o parceiro Sorocaba. Marrone estava lá, mas Bruno não. Já se via que o bolsonarismo não era unanimidade nem entre os sertanejos. Com a aproximação das eleições, alguns artistas procuraram ares diferentes do bolsonarismo. Zezé Di Camargo demonstrou simpatia pelo candidato Aldo Rebelo no início do ano, encantado com o nacionalismo do ex-comunista. Mas a candidatura de Rebelo flopou e Zezé parece não ter encontrado outro que o empolgue. Os sertanejos talvez não sejam bolsonaristas até debaixo d´água. Mas podem ser atraídos para o radicalismo de direita. Em breve teremos o segundo turno. Os sertanejos continuarão escondidos, sem grandes manifestações políticas? É improvável, pois a pressão de todos os lados provavelmente os forçará a tomar partido. Na semana passada uma série de artistas da MPB e atores que conhecemos através da TV Globo declararam voto em Lula. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Xamã, Sophie Charlotte, JotaPê, Malu Mader, Leona Cavalli, Paulinho da Viola, Zezé Polessa, Paulo Betti, Paula Burlamaqui, Maria Flor, Betty Gofman, Fernanda Abreu, Duda Beat, Tony Bellotto e Enrique Diaz participaram da campanha "Bora Lula". Esta semana Lula realizou um evento com artistas na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, onde recebeu apoio de Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Lenine, Daniela Mercury, Chico César, Zélia Duncan, Moska, Russo Passapusso, Tati Quebra Barraco e mais outros tantos atores e atrizes. Nenhum era sertanejo. Não haveria espaço para uma Lauana Prado, que já declarou voto em Lula em outros momentos? E Roberta Miranda, que se assumiu bissexual há alguns anos e provavelmente se sentiria coagida num novo governo Bolsonaro? Espanta que tantos artistas tenham se posicionado com Lula já no primeiro turno, forçando um segundo turno antes da hora. Polariza-se antecipadamente, escanteando-se possíveis aliados. Muitos supostos progressistas assumem um tom de "verdadeiros conhecedores da história", e se empolgam em acusar o Brasil sertanejo, evangélico e popularzão de idiotas úteis do bolsonarismo. Com o avanço do processo eleitoral, o "pobre de direita" é alvo dos progressistas raivosos, apelido que virou até título de obra de intelectual dessa esquerda limitada. Diante disso, não é impossível que os sertanejos, empurrados para a escolha final, optem por Flávio. Ainda assim, o bolsonarismo não parece estar no DNA deles. E quem os vê assim apenas empurra os sertanejos para este lado cada vez que se abstém de buscar diálogo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Os sertanejos s�o bolsonaristas?
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.