Esta crônica aborda a experiência de uma criança que visita o pai no presídio e, com a simplicidade de seu olhar, percebe aquilo que os adultos muitas vezes não conseguem enxergar. Essa história me toca profundamente, como alguém que há décadas acredita, trabalha e luta pela expansão do Método Apac. Porque, por trás de cada pessoa privada de liberdade, existe uma família que também sofre, especialmente os filhos, que não escolheram a prisão. Na primeira vez em que atravessou um presídio, ninguém percebeu isso. Todos estavam ocupados demais: documentos nas mãos, vozes apressadas, portões de ferro se fechando atrás de outros portões. Mandaram sua mãe abrir a bolsa, pediram que tirassem os sapatos, revistaram tudo. Ele não entendia por que era preciso desconfiar de quem só carregava saudade. Depois caminharam por corredores compridos e úmidos. O cheiro era pesado. As paredes pareciam cansadas. As grades faziam sombras no chão, como se até a luz precisasse pedir licença para entrar. Quando chegaram ao pátio de visitas, não havia mesas. Sentaram sobre um cobertor estendido no chão. O garoto achou estranho. Era ali que as famílias transformavam um pedaço duro de concreto em sala de estar, em almoço de domingo, em abraço. Então seu pai chegou. Era ele. O mesmo rosto, a mesma voz, mas alguma coisa havia mudado. Havia um muro dentro dele muito maior do que os muros da prisão. Enquanto o filho mostrava um desenho feito na escola, o pai olhava o relógio. Enquanto o garoto ria, o homem fazia contas dentro da cabeça. Enquanto o pequeno aproveitava o domingo, o adulto enxergava a segunda-feira que se aproximava. Na volta para casa, ele perguntou à mãe: "O papai esqueceu como é que sorri?". Ela não respondeu. Apenas olhou com tristeza e apertou sua mão. Algum tempo depois, voltaram a visitar o pai, mas dessa vez não havia filas intermináveis. Ninguém mandou tirar as roupas nem levantar os braços para a revista. Enquanto esperava, os olhos do garoto passearam pelo lugar. Não encontrou corredores escuros nem aquele silêncio pesado. Não viu pessoas sendo tratadas como se carregassem perigo nos bolsos. Viu um lugar onde as pessoas diziam "bom dia". Viu árvores, viu um parquinho com crianças se divertindo. Tinha uma pequena cascata e uma tartaruga que andava devagar pelo gramado e, antes mesmo de perguntar se podia brincar, alguém sorriu para ele e disse que sim. Quando chegou a hora do encontro, havia uma mesa coberta com uma toalha e três cadeiras. Parecia que alguém tinha preparado aquele lugar para uma família, não apenas para uma visita. Então o pai apareceu. Era o mesmo homem, mas já não era o mesmo. Seu sorriso chegou antes dele. Os braços envolveram o filho como se quisessem recuperar todos os abraços perdidos. Beijou seu rosto, bagunçou o cabelo, perguntou da escola, quis saber dos amigos. Seus olhos finalmente olhavam para o garoto. Naquele dia, ele descobriu uma coisa que talvez só as crianças consigam entender. As pessoas também respiram os lugares onde vivem. Há lugares que alimentam o medo, e outros que alimentam a esperança. Há muros que apenas prendem corpos, e há ambientes que libertam o que existe de melhor dentro das pessoas. Na volta para casa, perguntou à minha mãe: "O papai aprendeu a sorrir de novo?" Ela sorriu também. Hoje ele acha que sabe a resposta. Naquele lugar chamado Apac (Associação de Proteção e Assistência ao Condenados), ele não encontrou apenas seu pai. Encontrou uma família voltando a existir. A Apac é um desses lugares onde o pai continua sendo pai. Onde o filho pode continuar sendo apenas filho, e onde a esperança, enfim, ganha um endereço. Quando o sol começou a desaparecer atrás das montanhas, chegou a hora da despedida. O menino abraçou o pai. Desta vez, o sorriso permaneceu no rosto dos dois até o último aceno. Na viagem de volta, olhando pela janela do ônibus, ele pensou que um dia tudo aquilo acabaria. E, muitos anos depois, quando alguém lhe perguntasse o que era uma Apac, ele não responderia com estatísticas, nem com teorias. Responderia apenas com a lembrança mais bonita que guardou da infância: A Apac era o único lugar onde, no fim de um domingo de visita, seu pai ainda conseguia sorrir. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Os olhos que enxergam o invis�vel entre os muros de uma pris�o
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.