Os minutos seguintes � falha em Viracopos

Os minutos seguintes � falha em Viracopos

Toda infraestrutura falha. A pergunta que importa nunca é se, mas o que acontece nos minutos seguintes. Na terça-feira (22), em Viracopos, a concessionária, a Embraer e, sobretudo, a Azul e as demais companhias aéreas ofereceram ao país uma aula sobre esses minutos, e ela merece ser vista sem os óculos habituais da busca por culpados. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Os fatos são conhecidos: uma subestação do terminal se desligou às 3h10 e apagou o saguão de check-in; no fim da tarde, uma instabilidade atingiu os receptores de GPS dos jatos Embraer E2. A fabricante informou que era seguro voar. A Azul preferiu não voar: recolheu ao solo toda a sua frota desse modelo até entender o que via nas telas, escolhendo o grau máximo de segurança quando o mínimo exigido lhe bastava. O preço dessa escolha foi imediato e enorme: mais de 80 voos cancelados num só dia apenas pela paralisação dos E2, somados aos 26 perdidos com o apagão da madrugada, e mais de 8.000 passageiros a reacomodar, hospedar, alimentar e indenizar. E há um segundo preço, mais lento e talvez mais caro: o da reputação. Para o grande público ficou a manchete de uma companhia que deixou milhares de pessoas no chão. Quem decide pela segurança máxima raramente colhe o crédito por isso. Parar quando se pode voar é a decisão que ninguém aplaude no dia, porque o custo é visível e o acidente evitado é invisível. Clint Eastwood fez um filme inteiro sobre isso, "Sully", em que o piloto que salva 155 pessoas passa o resto da história explicando por que, com os dois motores parados, pousou num rio em vez de tentar o aeroporto que os simuladores diziam estar ao alcance. Outros operadores do mesmo jato, em outros países, seguiram voando com o aval da Embraer, que dispõe de procedimentos certificados para navegar sem GPS. A Azul tinha o mesmo aval e não o usou, para não voar com uma dúvida a bordo. No aeroporto, a obrigação da concessionária diante de um apagão não é explicar de onde ele veio, e sim manter o serviço de pé. A causa se apura depois; a continuidade se garante na hora. Foi o que se viu: o terminal parou, mas o aeroporto não. Turnos da noite e da manhã somados, energia devolvida primeiro ao check-in doméstico, para atender o pico, e ao longo da manhã ao restante do terminal. Onde o raio-X não voltava, entraram os procedimentos manuais que a lei prevê –a raquete, a mala aberta–, sem renunciar à inspeção. Pista, pátio e portões seguiram operando o tempo todo. Na fabricante, a Embraer e a Honeywell, dona do sistema de navegação, abriram uma sala de crise em horas. Pouco antes das 22h, o primeiro E2 decolou de Viracopos para Brasília com o GPS restabelecido, mas com a causa ainda desconhecida e sob investigação. Em três horas, a frota estava de volta. Em dois dias, a malha se recompôs.E então o telefone tocou. Segundo John Rodgerson, presidente da Azul, em relato publicado no LinkedIn, ao longo do dia ele recebeu várias ligações da Latam oferecendo assentos para os passageiros da concorrente e mensagem do Abra Group, controlador da Gol, colocando-se à disposição. As normas já obrigam a empresa que cancela a reacomodar o passageiro, inclusive em outra companhia. Ninguém, porém, é obrigado a ligar oferecendo. "Gestos como esses mostram que, quando a segurança e o cuidado com os clientes estão em jogo, a indústria aérea sabe se unir em torno daquilo que realmente importa", escreveu o executivo. O mercado foi capaz de agir como comunidade. O regulador, por sua vez, fez o que raramente lhe é reconhecido: acompanhou, coordenou, não atrapalhou. A agência informou que monitorava a situação junto à Embraer e aos operadores para assegurar que as operações permanecessem dentro dos requisitos de certificação. Não emitiu proibição, não fez ameaças públicas de punições, não buscou holofote. Deixou os técnicos trabalharem. Haverá tempo para o que não funcionou. Viracopos tem 5 geradores capazes de suprir todo o aeroporto, 3 subestações em anel dedicadas ao terminal e circuitos separados para check-in, portões e pista, de modo que, se a energia da rua tivesse caído na terça, quase nada teria acontecido. A concessionária apura por que, ainda assim, a falha aparentemente em um trecho do próprio anel bastou para apagar o check-in. A Embraer e a Honeywell buscam a origem da instabilidade. Mas, em uma terça-feira em que tudo deu errado ao mesmo tempo, ninguém deu errado. Cada peça do sistema fez a sua parte, e algumas fizeram mais do que a sua parte. Sidney Hook distinguia o homem que está no lugar certo na hora certa daquele que, na hora errada, ainda assim acerta. O país se acostumou a medir suas instituições pelos dias em que falham. Devia aprender a medi-las também pelos dias em que, tendo tudo falhado, se superam. Este foi um deles. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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