Greves, revoltas do pão e "agitação socialista": estas expressões mundiais de descontentamento tinham uma causa comum, argumentou Irving Fisher, economista da Universidade Yale, em 1912. Essa dor compartilhada era o aumento do "custo de vida". O problema era sentido em lugares tão distantes quanto o Canadá e a Índia, a França e o Japão. Esperar que qualquer localidade isolada enfrentasse as forças em jogo era quase tão absurdo quanto esperar que "os moradores da Baía de Fundy tentassem impedir a subida das marés". O FMI (Fundo Monetário Internacional) concorda com ele. Em seu relatório mais recente, o World Economic Outlook, os economistas do fundo analisam os aumentos mais recentes no custo de vida. As marés atingiram seus pontos mais altos em 2007/08, quando os preços dos alimentos e do petróleo subiram em paralelo, e em 2022, após a invasão da Ucrânia. Desde o fechamento do estreito de Hormuz, o custo de vida voltou a subir. Durante essas crises, os fatores globais responderam por cerca de 70% do aumento na maioria dos países ricos, calculam os autores do FMI. Mas, é claro, os políticos nacionais tendem a levar quase 100% da culpa. O que conta como uma crise de custo de vida (ou, para os americanos, uma crise de "affordability" —acessibilidade financeira)? Para a maioria das pessoas, a resposta é óbvia. Elas reconhecem quando veem o valor impresso na nota do supermercado ou exposto nos painéis dos postos de gasolina. Mas Fisher fazia questão de distinguir uma "mera alta de preços", também conhecida como inflação, de "uma alta de preços mais rápida do que o aumento das rendas". Um carrinho cheio de compras pode custar mais dinheiro sem se tornar mais difícil de obter, caso os salários estejam subindo no mesmo ritmo. Os produtos dentro do carrinho também podem mudar. Alexander Konüs, um economista russo, definiu o custo de vida em 1924 como o gasto necessário para assegurar um determinado "estado de satisfação de necessidades". Se alguns preços sobem e outros caem, consumidores astutos mudam seus hábitos de compra em resposta. Eles satisfazem suas necessidades comprando menos dos itens caros e mais dos mais baratos, "sem necessariamente alterar o patamar do seu padrão de vida". Os economistas do FMI adotam uma definição prática, focando em aumentos atípicos no custo de necessidades básicas, como alimentação e energia. É difícil encontrar alternativas para esses bens. E seus preços oscilam violentamente, ao contrário de outros serviços essenciais, como os cuidados de saúde. Para diferenciar crises de custo de vida de uma mera inflação, eles descartam casos em que a alta do preço dos alimentos e combustíveis é acompanhada por um aumento mais amplo nos salários ou nos preços ao consumidor em geral. Por essa definição, quase 90% dos 85 países estudados sofreram uma crise de custo de vida nos últimos 20 anos. 11 enfrentaram três ou mais. Numa crise típica, o custo de necessidades básicas sobe mais de 8% em relação a outros preços ao longo de 18 meses, podendo permanecer elevado por vários anos. Os salários não acompanham o ritmo. No pior momento, os salários ajustados pela inflação caem até 5,9% em comparação com um cenário sem crise. Diante desse cenário difícil, o que pode ser feito? Os moradores da Baía de Fundy, localizada na costa leste do Canadá, podem ser impotentes para deter as marés —que sobem mais em sua baía do que em qualquer outro lugar do mundo. No entanto, eles não se acomodaram diante da força da natureza: construíram centenas de quilômetros de diques pontilhados por comportas, conhecidos como aboiteaux. Formadores de políticas públicas ao redor do mundo têm agido de forma semelhante em resposta às crises de custo de vida. Nas economias emergentes, essas respostas dividem-se de forma equilibrada entre tentativas de conter os preços pagos pelos consumidores finais e esforços para elevar a renda dos afetados. Nas economias ricas, a divisão é de cerca de 40 a 60% a favor do aumento da renda. Nos países mais pobres, essa proporção se inverte. A contenção de preços —que inclui cortes de tarifas e impostos indiretos, bem como o controle de preço— pode reduzir "ligeiramente" as expectativas de inflação, concedem os autores do FMI. No entanto, essas medidas têm poucos outros pontos a seu favor. Elas beneficiam mais os ricos do que os pobres pelo simples motivo de que os ricos consomem mais dos produtos mantidos baratos pelas políticas públicas. Os autores do FMI calculam que, para cada euro gasto na contenção do preço da eletricidade, do gás e da gasolina nos países europeus, apenas 0,20 chegaram aos mais pobres. A contenção de preços às vezes toma a forma de subsídios aos produtores. Isso torna as empresas da cadeia produtiva mais competitivas no exterior, aumentando suas exportações. Em outras palavras, o dinheiro flui do contribuinte para os clientes estrangeiros. Mesmo o controle de preços, que não exige pagamentos diretos dos cofres públicos, pode impor custos fiscais no longo prazo: o Estado frequentemente precisa resgatar empresas de serviços públicos que não conseguem repassar o custo extra de seus insumos. Essas medidas também abafam o valioso sinal que os preços de mercado enviam. Os consumidores não veem motivo para moderar sua demanda ou satisfazer suas necessidades com uma cesta alternativa de bens; não têm razões para vestir um casaco em vez de aumentar o termostato. Comportam-se como moradores imprudentes da Baía de Fundy que negligenciam a fortificação de suas casas à beira-mar, confiantes de que antigas barreiras contra inundações os manterão secos. CONTROLE DAS URNAS Por que, então, os governos continuam interferindo nos preços? Alguns países pobres carecem de infraestrutura para fornecer formas mais eficientes de auxílio, como transferências de renda direcionadas aos mais necessitados. O controle de preços ou o corte de impostos também são mais rápidos de implementar. Em vez de compensar a população pelas dificuldades, buscam evitar o descontentamento em sua raiz. O fato de os benefícios não se limitarem aos mais pobres é uma desvantagem fiscal, mas representa uma vantagem política. A contenção de preços está se tornando, inclusive, mais popular. Durante a crise deste ano, cerca de 70% das respostas políticas dos governos dos países ricos tentaram segurar os preços. Trata-se de um aumento significativo em relação aos menos de 40% registrados em 2022/23, após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Entre esses dois episódios, vários governos no poder ao redor do mundo foram derrotados nas urnas. Os políticos não querem que a atual crise de custo de vida custe o seu próprio ganha-pão. Texto de The Economist, traduzido por Christian Policeno, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com
Os governos est�o gerindo mal a crise de custo de vida
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