A origem da palavra "democracia" é mais do que conhecida. Governo do povo (e, como se consolidou na frase de Abraham Lincoln: pelo povo, para o povo). E essa origem está mesmo gravada e cravada na etimologia, em que os radicais gregos "kratos", "poder", e "demos", o "povo comum" —em oposição a qualquer ideia de nobreza— já explicitam a ideia. Mas a "verdade" de uma palavra vai além de sua origem: ela se estabelece progressivamente, em seu uso ao longo dos séculos. E o sentido moderno de democracia, por exemplo, vai mais longe.A partir do modelo grego em que algumas cidades adotavam formas de seleção de líderes baseadas na escolha da população, a palavra passou a enfatizar esse lado da moeda. Regimes em que a população tem efetivamente nas mãos os meios de escolher seus líderes e, com determinada periodicidade, pode também retirá-los do poder. Mas esse regime se transformou. Entre a Grécia Antiga, a federação iroquesa, a Revolução Norte-Americana e a Francesa, houve movimentos na direção de não somente garantir à população o direito à voz, ao voto, mas tentar também estabelecer uma sociedade "democrática" que tivesse "igualitarismo, liberdade de expressão, antiautoritarismo", como define o dicionário Houaiss. O resultado das eleições do último domingo (4) é democrático no primeiro sentido da palavra: legítima manifestação da vontade de uma população. Uns cidadãos podem celebrar. Muitos podem chorar. Mas o resultado é exatamente isso: resultado. Ele decorre de processos e desenvolvimentos anteriores, maiores, mais definitivos. Decorre de escolhas. Já no que se refere ao segundo desses sentidos...Se você me permite uma alegoria, imagine agora uma pessoa que encontra uma daquelas míticas lâmpadas mágicas, de onde sai um gênio que lhe concede três desejos. E imagine agora que o primeiro desejo dessa pessoa seja: "eu quero perder o direito de fazer mais desejos". Usar um poder para abrir mão desse poder. O que espanta, o que assusta mesmo no resultado do primeiro turno dessa eleição é ver a poderosa máquina da democracia sendo utilizada pra selecionar "líderes" que estão longe de representar um compromisso claro com a própria democracia. A árvore votando no machado, como me disse uma aluna. Votar em quem questiona o próprio sistema de votação, mas somente quando perde (alguém aí ouvindo gritos por voto impresso e auditável?). Escolher quem até hoje foi incapaz de tratar como crime a tentativa de abolição violenta do Estado de Direito no 8 de Janeiro. Preferir um candidato a presidente que já afirmou ser favorável não apenas à anistia àqueles condenados, mas à concessão de um indulto presidencial, independente de ratificação ou chancela. Perdão total. A todos. Para ter o pai ao seu lado já no dia da posse. Como conceber a ideia de usar um poder imenso como o do voto, conquistado e reconquistado a duríssimas penas, apenas para entregar o controle a quem despreza esse sistema? Como imaginar que a democracia seja usada pra dar um passo arriscadíssimo na direção, se não do fim, ao menos da violenta fragilização da própria sociedade democrática: livre, igualitária, antiautoritária? O Brasil tem hoje menos de 20 dias para pensar se é mesmo essa a sua decisão. Para tentar usar bem os desejos que ainda restam. Menos de 20 dias. O Brasil tem menos de 20 dias Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Os dois sentidos da 'democracia'
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