Os desafios de Lula

Os desafios de Lula

Quando não se esperava recuperação após o primeiro turno, Lula conseguiu uma reversão histórica, com mais do que o dobro da vantagem que obteve sobre o pai de Flávio quatro anos antes. Mas as dificuldades do primeiro turno, espera-se, podem ter servido de alerta de que é preciso corrigir a rota, especialmente no fiscal. Aqui, precisamos abusar do copo meio cheio para vislumbrar uma saída organizada para o fiscal nos próximos anos. Começamos pelo fato de que Lula, reeleito, não precisa contestar as posições fiscais da oposição, como fez em 2023. Como sequência de si mesmo e garantido como último mandato, há amplo espaço para o entendimento de que é necessário um ajuste fiscal adequado. Não teremos o Lula de 2003, que herdou uma situação fiscal pra lá de bendita. Lula herda de si mesmo um fiscal muito pior, mas pode resgatar o espírito de 2003. O ministro Durigan, a sinalização de colocar Alckmin ou Galípolo na Fazenda, as conversas com economistas ortodoxos dão a entender que o governo entende os riscos que corre. Mas o grande problema é que parte importante do ajuste terá que passar pelo social, não tem escapatória. Com um governo de esquerda, espera-se quase sempre que os ajustes se deem mais pela arrecadação do que pelos gastos. E já começamos a ouvir isso, por exemplo, na discussão sobre o fim dos subsídios a títulos como LCI e LCA. Mas isso não bastará, e Lula terá de suar a camisa na sua nova vertente digital para convencer a sociedade de que ajustes nos gastos sociais também serão necessários. Isso será um desafio ainda maior após as disputas populistas entre os dois candidatos desde a reta final do primeiro turno. Só com as medidas eleitorais mais recentes, o governo adicionou gasto ou perdeu receita de R$ 45 bilhões a R$ 65 bilhões para 2027, a depender de quanto se perde de fato com o fim das bets. A meta primária de 0,5% do PIB, ou R$ 73,2 bilhões, já era inatingível antes disso. Com os desajustes de poucas semanas, o governo anula o superávit efetivo de R$ 18,6 bilhões previsto no Orçamento de 2027 e consome quase todo o resultado esperado da meta. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões Vale dizer que, mesmo com medidas socialmente impopulares que têm sido propostas por nós, economistas, como ajustar o salário mínimo na Previdência apenas pela inflação e desvincular da receita os pisos constitucionais de saúde e educação, consegue-se abater quase R$ 1 trilhão do déficit acumulado em dez anos. O número parece grande, mas é insuficiente. Deixaríamos de ter uma dívida pública bruta de 120% do PIB em 2035 para 111% do PIB. Seria necessário mais do que isso para gerar um primário adicional de 2% do PIB e talvez estabilizar a dívida em 90% do PIB. A dificuldade também decorre de o juro real tender a permanecer próximo de 8% ao longo de 2027, o que agrava o cenário fiscal e exige um ajuste mais acentuado. Mudar isso passa não apenas pela escolha de uma equipe econômica crível mas também por uma mudança de mentalidade do governo; senão, corremos o risco de repetir os erros de 2015, quando Dilma levou Joaquim Levy para a Fazenda, que passou a trabalhar sozinho, com o governo contra suas medidas na maior parte das vezes. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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