Organiza��o ligada � CIA vai treinar e financiar funcion�rios do Banco Mundial no Brasil

Organiza��o ligada � CIA vai treinar e financiar funcion�rios do Banco Mundial no Brasil

O Banco Mundial assinou um contrato com a NobleReach, organização ligada à CIA (Agência Central de Inteligência, semelhante à Abin), para enviar oito funcionários norte-americanos para os escritórios do banco no Brasil, Panamá e Colômbia. Os funcionários serão pagos com recursos da entidade, que passou por uma fusão com uma subsidiária da agência de inteligência americana em 2022. A NobleReach também treinará e oferecerá mentoria aos funcionários enviados para o Banco Mundial na América Latina. A organização, que descreve a própria missão como defesa da "segurança nacional e econômica" dos Estados Unidos, tem contratos com a NSA (Agência Nacional de Segurança) e com o Departamento de Defesa do país. O Banco Mundial afirmou em nota que o programa de talentos é semelhante a outras iniciativas de empresas ao redor do mundo, e reiterou que os participantes estarão sujeitos às regras do banco, sem ligação com a entidade doadora. A NobleReach foi questionada, mas não respondeu à reportagem. Em 2022, a NobleReach fundiu-se com a IQT Emerge, subsidiária da In-Q-Tel. A In-Q-Tel é o braço de venture capital, setor de investimento voltado a empresas de estágio inicial, da CIA. A fundação firmou, em 2025, parceria com a NSA, a agência de segurança nacional dos EUA envolvida em casos de espionagem também no Brasil, para recrutar jovens para trabalhar na área de inteligência. O contrato tem teor semelhante ao da entidade com o Departamento de Defesa americano. Já com a Darpa, a agência de pesquisas avançadas do Pentágono, a NobleReach tem um acordo para desenvolvimento de tecnologia de uso dual, civil e militar. A organização é membro-fundador da Tech Force da Casa Branca, que visa contratar especialistas em cibersegurança, inteligência artificial e software para trabalhar em cargos ligados à segurança nacional no governo americano. "O trabalho da NobleReach aumenta a confiança entre governo, indústria e academia, e é essencial para a dominância dos EUA na competição de ameaças globais", diz no site da organização Victoria Virasingh, vice-presidente sênior de alianças estratégicas da NobleReach. A organização tem ativos de US$ 448 milhões (R$ 2,3 bilhões) segundo dados do imposto de renda americano compilados pela ProPublica. Segundo o contrato entre o Banco Mundial e a NobleReach, obtido pela Folha, a organização financiará funcionários da organização internacional no Brasil, Panamá e Colômbia por meio de uma doação de US$ 500 mil (R$ 2,5 milhões) ao fundo truste (que passa a administração de bens para um terceiro) da instituição. O acordo gerou estranhamento entre funcionários do banco, já que a instituição costuma receber doações de governos, não de organizações, e com foco em desenvolvimento e clima, não em segurança nacional. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. O foco da In-Q-Tel e da IQT Emerge, absorvida pela NobleReach em 2022, é investir em tecnologias de uso duplo –comercial e para segurança nacional– que sejam estratégicas para a CIA e agências de inteligência dos EUA. A In-Q-Tel foi uma das primeiras investidoras da Palantir, a gigante de IA e vigilância que é uma das maiores fornecedoras do Departamento de Defesa americano. A NobleReach funciona como catalisador de talentos para contratação pelo Pentágono, CIA e NSA. Mas, por meio da NobleReach Emerge, também atua em projetos considerados estratégicos para segurança nacional americana –como o de verificação autônoma de cabos submarinos com a gigante de defesa Anduril. As vagas da parceria entre World Bank Explorer Program e a NobleReach Scholars são exclusivas para cidadãos americanos. São duas vagas em Brasília, duas em São Paulo, duas no Panamá e duas na Colômbia. As vagas são para áreas de análise financeira, infraestrutura e administração. No site institucional, a NobleReach afirma que o programa de bolsas "oferece um caminho único e estruturado para que talentos emergentes em ciência e tecnologia sejam empregados na comunidade de inteligência dos EUA, incluindo conexões diretas para empregos na NSA e intersecções com a CIA". O banco não especifica se os funcionários trabalharão em projetos de minerais críticos e infraestrutura de tecnologia. Também não consultou previamente o governo brasileiro sobre o envio dos funcionários ligados à fundação. O Palácio do Planalto foi procurado pela Folha, mas não respondeu. Procurado, o diretor-executivo Marcos Vinicius Chiliatto, que representa Brasil, Colômbia, República Dominicana, Equador, Haiti, Panamá, Filipinas, Suriname e Trinidad e Tobago, afirmou que "esse tema não é de competência do Conselho (representantes dos países membros) e, sim, da Administração. Ainda assim, quando tomei conhecimento do processo, solicitei informações sobre a diligência prévia efetuada pela administração do banco antes de assinar o convênio e solicitei um parecer do departamento jurídico, além de pedir que as contratações não fossem efetivadas até a conclusão dessas consultas. A Folha enviou nove perguntas ao Banco Mundial, questionando o tipo de treinamento e mentoria que a NobleReach oferecerá aos funcionários do banco, além do motivo para a escolha da organização como parceira e se os países anfitriões poderiam se recusar a receber os funcionários. A reportagem também indagou se a organização internacional não vê conflito de interesses entre as atividades de inteligência e segurança nacional dos EUA da NobleReach e a neutralidade do banco como instituição multilateral de fomento ao desenvolvimento. O órgão não respondeu às perguntas e enviou nota. "O Programa Explorers do Grupo Banco Mundial é um programa de talentos financiado por doadores, concebido para oferecer a profissionais de países desenvolvidos em início de carreira experiência prática de campo em apoio ao trabalho de desenvolvimento do banco", afirmou a instituição. Segundo a assessoria, o Banco Mundial "mantém programas similares de talentos com financiamento externo em parceria com organizações ao redor do mundo." Segundo a instituição, os participantes do programa estão sujeitos às normas e padrões de conduta do Banco Mundial e se reportam a gestores da instituição, não possuindo qualquer vínculo empregatício ou hierárquico com o doador. "O acordo com a NobleReach, doador de parte deste programa, passou pelos processos padrão de due diligence, análise jurídica e institucional, e aprovação do Grupo Banco Mundial." Questionado posteriormente sobre quais outras organizações, além de governos soberanos, são doadores do programa, o banco não respondeu. A Folha enviou três emails com 15 perguntas à NobleReach, mas não obteve retorno. Vários ex-integrantes da CIA e do Pentágono estão nos conselhos diretivos da NobleReach, entre eles Constantine Saab, que trabalhou por 18 anos na agência de inteligência americana e chegou à chefia de estratégia da agência, e Lisa Disbrow, presidente do conselho da Associação da Indústria de Defesa dos EUA e ex-secretária da Aeronáutica no Pentágono. Entre os mentores do programa parceiro com o Banco Mundial estão o general Paul Nakasone, ex-diretor da NSA e comandante do Comando Cibernético dos EUA, e John Raymond, ex-chefe das Operações Espaciais do Departamento de Defesa.

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