A operação Contenção durava sete horas no complexo da Penha, zona norte no Rio de Janeiro, quando o então governador Cláudio Castro (PL) chegou à sede da secretaria de Segurança Pública para uma entrevista coletiva, no início da tarde do dia 28 de outubro de 2025. No que seria um balanço parcial da operação, Castro criticou o presidente Lula (PT), as forças federais, o Ministério da Defesa e chamou de "maldita" a ação executada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) que aumentava o rigor sobre as incursões policiais em comunidades. Àquela altura, a polícia contabilizava 18 suspeitos mortos, 81 presos e dois policiais civis mortos. O tiroteio continuou à tarde e à noite, corpos na mata foram encontrados na madrugada e aquela ação policial se tornou a mais letal da história do Brasil, com 122 mortos. Três personagens de liderança daquela operação —dois ex-secretários e um delegado baleado no tiroteio — foram eleitos para cargos no Legislativo no último dia 4 de outubro. Castro, que à época tinha planos de concorrer ao Senado, acabou desgastado por prisões de aliados, desistiu do pleito e se tornou inelegível por decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O ex-secretário de Polícia Civil, Felipe Curi (PP), foi eleito deputado federal. O ex-secretário da PM, coronel Marcelo Menezes (PL), e o delegado Bernardo Leal (PP) foram eleitos deputados estaduais. A policial militar Monique Busson (PSDB), que ganhou visibilidade na internet por ter participado da operação, foi candidata a deputada federal, mas não se elegeu. Castro foi procurado para comentar o resultado político da operação Contenção. A tentativa de contato foi feita na segunda-feira (19), por meio de mensagem à assessoria de imprensa, que não respondeu. Para aliados dos eleitos ouvidos pela Folha, o êxito das autoridades no pleito envolve a estratégia adotada pela cúpula da polícia fluminense: disputar o controle do que se diz sobre a operação, com vídeos em tom de opinião e politização do tema da segurança pública. A operação foi politizada logo nas horas seguintes. Tratada como "um sucesso" por Cláudio Castro, foi chamada de "matança" e "desastrosa" por Lula. O então governador alcançaria os maiores índices de aprovação pelo Datafolha após a operação. A ação foi também considerada sucesso para 57% dos moradores nos dias seguintes. Até a eleição, protagonistas da operação Contenção investiram em participações em podcasts e comentários políticos nas redes sociais. Os três eleitos apoiavam Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Flávio, no dia seguinte à operação, ironizou os 117 mortos. Ao comentar foto da fila de corpos na praça São Lucas, na Penha, disse que esses não iam mais "traficar, roubar e matar". Felipe Curi foi eleito à Câmara com 133.626 votos. Foi o 14° mais votado do estado e teve votação expressiva nas zonas eleitorais mais próximas ao complexo da Penha. Curi chegou a ter seu nome testado em voos maiores. Foi tema de pesquisas internas do PL para o Senado e o governo, ainda no ano passado, enquanto, publicamente, negava migrar para a política. Ele já havia ganhado notoriedade em operações anteriores, como a do Jacarezinho, em maio de 2021, que deixou 28 mortos e era, até aquele momento, a operação com mais mortos da história do estado. A operação do Jacarezinho ocorreu seis dias depois de Castro tomar posse como governador em exercício, após impeachment de Wilson Witzel (então no PSC). Após aquela operação, membros da Polícia Civil chamaram publicamente de "ativismo judicial" a decisão liminar do ministro Edson Fachin, do STF, dada um ano antes, de restringir operações policiais em comunidades para "hipóteses excepcionais". A operação do Jacarezinho foi batizada de Exceptis [exceção, em latim]. A liminar foi resultado da ADPF 635 (arguição de descumprimento de preceito, a ADPF das Favelas), apresentada pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro) durante o governo Bolsonaro. A mesma ADPF que foi chamada de "maldita" por Castro no dia da operação Contenção. Ao longo dos anos, políticos e autoridades policiais responsabilizaram a ADPF pelo que seria um aumento de confronto entre facções e a expansão de barricadas pelo estado. Os dados, contudo, indicavam redução de mortes em confronto e letalidade policial. Em 2025, com base na ADPF, a corte definiu exigências para operações, como ambulâncias para resgate, o uso de câmeras corporais e produção de autópsias com celeridade. No dia da operação Contenção, Flávio Bolsonaro comentou em publicação nas redes sociais que a ação da corte "foi um erro que ignorou o que acontece na linha de frente e que o colocou em risco a população". "Há um histórico de operações em que a polícia foi muito atacada. A operação [Contenção] teve falhas, que foram inclusive objetos de estudo de caso. Mas a operação teve sucesso e a estratégia de comunicação foi determinante para que a gente pudesse conectar com a opinião pública. Fez parte da nossa estratégia titularizar as narrativas", afirma o então secretário da PM, Coronel Menezes (PL). "Em qualquer lugar do mundo uma pessoa que porta um fuzil é sistematicamente abatida. Aqui no Brasil têm sempre que dar satisfações de quais foram as circunstâncias." Menezes diz considerar importante operações como aquela — "foram apreendidos grande número de armas, drogas e material que produziram conhecimento e ensejam apurações em curso" — , mas que o foco do governador eleito Douglas Ruas (PL), ex-policial civil, deverá ser a reocupação de territórios. Menezes foi eleito para a Alerj com 46.700 votos. Terá ao lado o delegado Bernardo Leal (PP), que teve 57.254 votos. Leal foi baleado durante intensa troca de tiros com integrantes do Comando Vermelho em área de mata. O resgate, gravado por câmeras corporais, foi divulgado pela polícia e comoveu a opinião pública. O delegado passou 47 dias internado e precisou amputar uma perna. Leal tem justificado apoio a Flávio afirmando que o senador tem "coerência e compromisso" com a segurança pública e se mobilizou para doações de sangue durante a internação. "Flávio foi um dos únicos políticos que procurou minha família dando apoio, pedindo doações de sangue a fazendo uma vaquinha para o valor fosse investindo para as famílias dos policiais", afirma o deputado eleito em vídeo nas redes.
Opera��o Conten��o, a mais letal do pa�s, impulsionou elei��o de chefes da seguran�a no RJ um ano depois
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.