Um ano se passou desde a operação policial mais letal já documentada no país, com 122 mortos. Mas o saldo em segurança pública da Operação Contenção, deflagrada em 28 de outubro de 2025 no Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, é praticamente nulo. Além do potencial abuso no uso da força por parte dos agentes, o que infringe direitos humanos, o confronto entre os objetivos pretendidos e os alcançados evidencia ineficiência. Dos 51 alvos de mandado de prisão, só quatro foram capturados e outros dois já estavam presos; os 45 restantes não foram localizados. Dos 145 mandados de busca e apreensão, cumpriram-se 34. Um dos líderes do Comando Vermelho, Luiz Carlos Bandeira Rodrigues, comanda da Penha o tráfico na zona oeste do Rio e em cidades da Bolívia —dados da Polícia Federal mostram que o CV atua em oito países da América do Sul. Outro, Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, tem 46 mandados de prisão em aberto. Ambos eram alvos da Operação Contenção; nenhum foi preso. Na última terça (28), familiares realizaram um ato para exigir justiça: as 12 ações penais abertas ainda não esclareceram as circunstâncias de cada caso. As 4.400 horas de gravação das câmeras dos PMs envolvidos não registraram as mortes, segundo análise das imagens feita pela ONG Human Rights Watch. A polícia, a Justiça e o governo fluminense precisam direcionar esforços para elucidar as mortes e punir quem cometeu abusos. A atuação do CV vai além do tráfico, com roubo de veículos e cargas, cobrança de taxas de moradores e comerciantes, venda de serviços clandestinos de TV e internet e posse de imóveis. Tal movimento de controle territorial típico das facções, como a paulista PCC, não se restringe ao Rio. Levantamento da Folha identificou 18 operações relacionadas ao CV, conduzidas por Ministérios Públicos ou polícias, entre janeiro e outubro em 14 estados. As investigações tratam de expulsão de moradores, extorsão de comerciantes e provedores de internet e controle ilegal de serviços. A expansão e o fortalecimento do crime organizado exigem mais do que operações espetaculosas com altas taxas de letalidade. É preciso ação integrada e de inteligência entre forças de segurança federais e estaduais, além da participação de órgãos como a Receita Federal e o Coaf, para asfixiar redes de financiamento. Ademais, urge combater a corrupção nas polícias, nos serviços públicos e na política, dada a infiltração perniciosa das facções nas estruturas do Estado. editoriais@grupofolha.com.br
Opera��o Conten��o, 1 ano depois
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