A Califórnia caminha para rejeitar o primeiro imposto sobre grandes fortunas dos Estados Unidos, mas a avassaladora vitória dos democratas —impulsionada em parte pela indignação dos eleitores com a influência política da plutocracia— indica que a ideia de criar novas alíquotas sobre bilionários no país permanece em pauta. A proposta submetida a plebiscito para impor uma alíquota inédita de 5% sobre os bilionários do estado se encaminhava para a derrota conforme a apuração prosseguia na noite de quarta (4), após nomes como o cofundador do Google, Sergey Brin, e o investidor de capital de risco Vinod Khosla mobilizarem centenas de milhões de dólares para combater o tributo. Porém, a provável derrubada da Proposição 40—proposta estadual que prevê cobrança de imposto de 5% sobre residentes da Califórnia com patrimônio acima de US$ 1 bilhão— pode marcar apenas o início da batalha eleitoral em torno da taxação de fortunas nos EUA, segundo estrategistas e especialistas políticos, à medida que democratas fortalecidos conquistaram vagas em todo o país num resultado que funcionou como uma dura repreensão à influência dos bilionários na política. "As pessoas detestam os bilionários sem saber exatamente o motivo. Elas simplesmente acham que os bilionários deveriam ser taxados", afirmou David Crane, professor da Universidade Stanford, que prevê o surgimento de propostas semelhantes em outros estados. O Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz acrescentou ser "apenas uma questão de tempo" até que uma iniciativa parecida ganhe força. "Mudanças significativas raramente avançam em linha reta: em 1895, a Suprema Corte dos EUA derrubou o imposto de renda federal e, 18 anos depois, ele acabou incorporado à Constituição", lembrou o professor da Universidade Columbia. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões Os cidadãos mais ricos dos Estados Unidos se aproximaram de Donald Trump durante seu segundo mandato. Essa aliança, contudo, tornou-se um passivo para os republicanos quando os eleitores manifestaram sua revolta contra o fosso cada vez maior entre os super-ricos e as famílias comuns, às voltas com o alto custo de vida. Em disputas por todo o país, os democratas miraram os mais abastados. Abdul El-Sayed, uma das principais vozes progressistas do partido, venceu a disputa para o Senado em Michigan na noite de terça-feira (3) após fazer da defesa do imposto sobre fortunas um dos pilares de sua campanha. Os políticos precisam encarar "as corporações, os bilionários e os grupos de interesse que manipularam o sistema contra nós por tempo demais", declarou ele em seu discurso de vitória em Detroit. James Talarico afirmou que sua vitória na disputa pelo Senado no Texas —a primeira de um democrata em uma geração— "enviou um recado a cada mega-doador bilionário [e] a cada mega-doador trilionário". Elon Musk desembolsou mais de US$ 150 milhões (R$ 820,1 milhões) para apoiar o rival republicano de Talarico. A provável rejeição do imposto sobre fortunas na Califórnia representa uma rara vitória para os mega-doadores bilionários nas eleições de meio de mandato nos EUA. Mais de 55% dos eleitores se opuseram à medida, segundo os votos apurados até quarta-feira (4), depois que o governador Gavin Newsom e o democrata Xavier Becerra —vencedor da disputa para suceder Newsom— também fizeram campanha contra a cobrança. Essa vantagem pode diminuir nos próximos dias, dada a forte dependência do estado em relação aos votos por correio. A agência Associated Press ainda não declarou um resultado final para a votação do imposto, e levará semanas até que a secretaria de Estado da Califórnia certifique os dados. Uma medida paralela projetada para anular a taxa sobre bilionários também se encaminhava para a aprovação. Os bilionários arrecadaram mais de US$ 300 milhões (R$ 1,64 bilhão) para enterrar o projeto. Brin, o ex-presidente-executivo do Google Eric Schmidt, Khosla e o investidor de risco Michael Moritz doaram, cada um, milhões de dólares para derrotar a iniciativa. Eleitores por toda a Califórnia relataram ter sido bombardeados por mensagens, chamadas telefônicas e anúncios nas redes sociais e no YouTube no período que antecedeu a votação. Cristobal Young, professor de sociologia na Universidade Cornell, observou: "Para a pequeníssima parcela da população que seria afetada, as guias de pagamento seriam astronômicas. Estaríamos falando de algumas das maiores contas de impostos já emitidas para qualquer indivíduo na história do mundo." O fracasso da campanha refletiu, em parte, equívocos cometidos pelo sindicato dos trabalhadores da saúde SEIU-UHW, principal fiador do tributo, segundo Crane, de Stanford. A entidade estruturou a medida para direcionar a arrecadação exclusivamente aos gastos com saúde, o que levou outros grupos, como o maior sindicato de professores da Califórnia, a se oporem à alíquota. Newsom e Becerra, por sua vez, argumentaram que a medida única não constituía uma boa política de longo prazo. O governador em fim de mandato alertou que a cobrança expulsaria a inovação e o capital do estado que abriga o Vale do Silício. Parte dos eleitores também se convenceu de que o imposto sobre bilionários abriria brecha para taxas mais amplas sobre o patrimônio. "Parece bom, um imposto sobre bilionários, mas a oposição argumentou que a coisa não pararia por aí", disse Darran Matthews, 56, organizador de eventos em Glendale, região predominantemente de classe média, que votou contra a proposta. Já uma funcionária da rede de fast-food In-N-Out Burger disse ao Financial Times que apoiou a medida. Votando na região de classe trabalhadora de Los Angeles na terça-feira (3), ela contou que adiou em um ano o início da faculdade de enfermagem devido a cortes na assistência financeira decorrentes da Lei "One Big Beautiful Bill" ("Um Grande e Belo Projeto de Lei", em tradução livre), projeto emblemático de Trump. "Não se trata de política. Trata-se de humanidade, de moral e de se importar com as pessoas, e menos sobre impostos", afirmou. Entre os mega-doadores que financiaram a derrota da iniciativa estava uma figura diversos degraus acima dela na hierarquia da In-N-Out: Lynsi Snyder, herdeira da rede de lanchonetes californiana que, no ano passado, trocou a Califórnia por Franklin, no Tennessee.
Onda democrata mant�m viva taxa��o de fortunas nos EUA ap�s derrota na Calif�rnia
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