Escrevi minha primeira coluna na Folha no final de 2016, o ano da primeira eleição de Donald Trump. Um dos possíveis marcos iniciais de um ciclo que veio dar nesse estranho agora. Como era dezembro, tratei das palavras midiáticas daquele ano, inclusive a escolha do dicionário Oxford — "post-truth", pós-verdade. Observei que "num mundo em que as redes sociais formam a opinião pública, algo profundo mudou". É curioso pensar que ninguém previa então a outra volta do parafuso que os tecnobilionários tinham em estoque. Dez anos atrás foi ontem, e, ao mesmo tempo, outra era. Quem imaginava que, depois de nos rodear em cercadinhos de atenção monetizados, os donos do mundo iam caminhar para um extremismo apocalíptico de direita e nos injetar sem controle, submetida só a leis de mercado, a droga dos LLMs? Outro dia me ocorreu que todo ser humano vivo hoje lembra aqueles moradores de Goiânia brincando com o belíssimo césio-137. Ideia doida, não? Nada a ver. E, no entanto... Por quase dez anos, sucessor meio mutante do professor Pasquale, tratei aqui de linguagem em sentido amplo, embora cuidasse de etimologia e gramática também. A aposta era que, falando das palavras não só como entes gramaticais, mas como formas de dar sentido ao mundo, eu chegaria a um tipo específico de crítica cultural. Cabe aos leitores dizer se deu certo. Sei que fiz da coluna o que quis e pude, e nisso o mérito do jornal é imenso. Jamais ouvi um "a" de chefe sobre o que tivesse escrito ou deixado de escrever. Acredito ter contribuído para abalar —um caminho sem volta— aquele velho senso comum, até então soberano na imprensa, que só sabe pensar a língua em termos de certo e errado, recompensa e punição. Além do discurso normativo, que tem importância óbvia e nunca careceu de defensores —que hoje pululam online, nem sempre seguindo boas normas de higiene—, há inúmeros modos de escrever sobre a língua. Inclusive o mais elusivo de todos, que é escrever a língua. Botá-la pra jogo. Pensando naquele início, 466 colunas atrás, um ciclo me parece mesmo completo, e não só porque a Folha pediu de volta este espaço, cuja honrosa ocupação temporária agradeço. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Hoje o papagaio estocástico que o marketing batizou de IA molda sua pasta sintética de linguagem até em forma de coluna de jornal(!), para nem falar de teses de doutorado e livros inteiros. Escrever a língua se tornou artigo meio raro, talvez de interesse para um público minguante. É possível que já não dê para deter uma marcha que escapa ao controle de Estados. O poder econômico é massivo, a retórica do "não fique pra trás", uma chantagista eficaz, e a tal da IA impressiona mesmo com suas mil e uma utilidades —a maioria das quais bota áreas inteiras do cérebro para dormir. Se cabe uma mensagem de despedida, ei-la: haja o que houver, e estando ao seu alcance fazer isso, não deixe quem você ama desaprender de ler, escrever, buscar coisas em livros —pensar. Essa pessoa ainda vai te agradecer, qualquer que seja o futuro. Muito obrigado pela leitura, e até a próxima. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Olho vivo com a IA e boa sorte para n�s
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