Um deputado concentrou quase 80% dos votos numa cidade; outro construiu uma audiência pelo estado. O contraste ajuda a entender os novos incentivos da representação política. Há anos se repete o mesmo mantra: é preciso renovar o Congresso. Mas renovar o quê, exatamente? A composição etária, a extração social, os vícios do ofício? Dois deputados eleitos por São Paulo em 2026 ajudam a precisar a pergunta. Paulo Serra (PSDB) governou Santo André por dois mandatos, de 2017 a 2024, encerrando a gestão com cerca de 80% de aprovação popular. Elegeu-se deputado federal com 132.866 votos, suficientes para ser o único representante do Grande ABC na Câmara. Sua campanha foi regional: um plano diretor do Grande ABC para articular, em Brasília, projetos dos sete municípios da região. Lucas Pavanato (PL), vereador de São Paulo eleito em 2024 com 161 mil votos, multiplicou esse capital quase vinte vezes: recebeu 3.038.438 votos, a maior votação já registrada para deputado federal no estado. Construiu forte presença digital, com bandeiras como a crítica ao STF, o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e pautas das guerras culturais. Os números, lado a lado, contam a história melhor do que qualquer adjetivo: Serra obteve 78,3% dos seus votos em Santo André. Para reunir 80% dos votos de Pavanato, é preciso somar 98 municípios, mas ele teve votos em todos os 645 municípios paulistas. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados Dois modos de constituir uma base eleitoral. Serra se aproxima do que Richard Fenno chamou de "home style": a relação de confiança que o representante constrói com uma base geográfica pela presença, pela prestação de contas e pela explicação de sua atuação. Pavanato se aproxima do que Bernard Manin chamou de democracia de audiência: uma representação personalizada, em que o vínculo entre liderança e eleitor depende menos das antigas fidelidades partidárias e mais da comunicação direta. As redes sociais ampliaram essa possibilidade. É tentador concluir que esse segundo modelo troca proposta por espetáculo. Mas o próprio Pavanato descreveu esse incentivo. Em entrevista a Patrícia Campos Mello, publicada pela Folha em setembro, ele foi direto: "O que desperta o interesse do público é confronto, são os discursos mais enfáticos." Na sequência, admitiu que não consegue fazer uma entrega de mandato viralizar tanto quanto um debate com um adversário de esquerda. Isso não torna o eleitor de audiência menos legítimo que o de território: representar pessoas dispersas em torno de uma causa comum também é presença democrática válida, e um deputado federal tem responsabilidades que vão além do bairro ou da cidade. A pergunta que fica é sobre o incentivo, não sobre o eleitor: se o Congresso se renovar cada vez mais pela lógica que o próprio Pavanato descreve, hospital, transporte, emprego, segurança e escola, pautas que dependem de negociação lenta e entrega mensurável, perdem terreno para o confronto que se recicla a cada ciclo de engajamento. Uma audiência nacional pode ser mantida por temas cuja força política depende menos da solução do problema do que de sua capacidade contínua de mobilização. Se a renovação do Congresso seguir essa lógica, pode se tornar mais rentável oferecer ao eleitor um inimigo para combater do que um problema concreto para resolver.
Oferecer um inimigo ao eleitor pode se tornar mais rent�vel do que resolver problemas concretos
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