'Obsess�o' e 'Backrooms' mostram a gera��o Z paralisada diante do espelho

'Obsess�o' e 'Backrooms' mostram a gera��o Z paralisada diante do espelho

Minha geração foi aterrorizada por psicopatas insistentes e nem sempre humanos. Falo de cinema. "Halloween", "Sexta-feira 13", "A Hora do Pesadelo". A estrutura era reconhecidamente a mesma: de repente, a normalidade era invadida por uma figura tenebrosa, desfigurada ou mascarada, que começava a matar com um profissionalismo irretocável. As vítimas eram quase sempre jovens, geralmente em férias, e os primeiros a marchar para a morte eram os mais dissolutos e desbocados. No final, restava apenas a boa mocinha, madura para a idade, que conseguia escapar ilesa depois de um confronto com a besta. O fato de estar sóbria –sem álcool nem drogas– aumentava suas chances de sobrevivência. Se fosse casta, melhor ainda. Eu ria desses filmes. Nervosamente, mas ria. Minha geração também. Como defendem os teóricos do "slasher" —nome dado a esse gênero de terror—, alguns desses filmes eram sermões dos "baby boomers" destinados a assustar e moralizar o cinismo pedante da geração X. Tudo mudou. A geração X envelheceu –sem glória, mas também sem drama. E os filmes de terror da geração Z, criados por essa mesma geração, parecem mudar as regras do jogo. A ameaça já não é externa, física, puritana. É interior, psicológica, sem possibilidade clara de catarse. Pensei nisso quando assisti a dois dos sucessos de bilheteria do ano, dirigidos por jovens cineastas: "Obsessão", de Curry Barker, de 26 anos, e "Backrooms", de Kane Parsons, de 21. "Backrooms" volta agora aos cinemas brasileiros na versão do diretor. Atenção aos spoilers. Em "Obsessão", encontramos Bear, papel de Michael Johnston, um representante de sua geração, incapaz de estabelecer uma relação amorosa com Nikki, vivida por Inde Navarrette. Bear é um "incel", para usar a terminologia do nosso tempo –um "celibatário involuntário"–, e só um feitiço pode ajudá-lo a sair do casulo. O feitiço aparece numa loja de ocultismo, e Bear, alheio ao aviso de Oscar Wilde –os deuses nos castigam atendendo às nossas preces–, pede aos astros que Nikki o ame mais do que a qualquer outra pessoa no mundo. E assim acontece: Nikki corresponde ao sentimento com tamanha devoção que Bear começa a suspirar por uma vida no convento. Brinco, "ma non troppo". Em "Backrooms", temos Clark —Chiwetel Ejiofor—, arquiteto frustrado e vendedor de móveis. Certo dia, ele descobre, no porão da loja, uma fresta estranha que dá acesso a um labirinto interminável. Esse labirinto é uma metáfora de sua própria mente e de seus traumas, revelando o isolamento irremediável do personagem. Na verdade, Clark abraça o labirinto –uma espécie de fuga para dentro que nem sua terapeuta, interpretada por Renate Reinsve, consegue impedir. O que só agrava o diagnóstico: se nem Renate Reinsve consegue resgatar um homem, estamos diante de um caso perdido. Em "Obsessão", o personagem cria um atalho para sublimar os próprios medos; em "Backrooms", o personagem descobre um labirinto no qual pode se esconder com seus fantasmas. Ambos são incapazes de lidar com a textura crua da vida –o risco, a desilusão, a responsabilidade pelos próprios atos. Esse recuo, longe de protegê-los, acaba cobrando um preço ainda maior. É sempre arriscado fazer diagnósticos geracionais, eu sei. Lendo o que se escreveu sobre os dois filmes, não discordo inteiramente da psicoterapeuta Lauren Cook, autora de "Geração Ansiosa", em declarações à CNN: a principal vantagem da geração Z sobre as gerações que a precederam é a capacidade de verbalizar e analisar os terrores que a consomem. Meu ponto, porém, não está na lucidez com que os "zoomers" retratam as próprias angústias. Está em uma suspeita mais desconfortável: e se o excesso de literacia emocional não produzir necessariamente mais coragem para agir? Minha geração tinha um monstro mascarado para vencer. A geração de Bear e Clark vive paralisada diante do espelho. E não há confronto final possível contra o próprio reflexo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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