Observa��o de aves impulsiona turismo rural no interior da Col�mbia

Observa��o de aves impulsiona turismo rural no interior da Col�mbia

Antes do nascer do sol, de lanterna na cabeça, comecei uma descida de 700 metros pelas matas colombianas atrás de um espetáculo da natureza. A trilha apertada me levou até uma cabana improvisada com vista para a floresta fechada. Parecia mesmo um teatro na selva: três pássaros enormes de crista vermelha pomposa surgiram para se exibir para uma fêmea, muito mais discreta. Eles pulavam de galho em galho e trocavam grunhidos, uma cena que durou poucos minutos. As aves eram galos-da-serra-andinos, famosos pelos leks, arenas de exibição para acasalamento. Sua crista redonda é tão exagerada que esconde seu bico diminuto, dando uma aparência de bicho de outro mundo. Estávamos na propriedade de Doña Dora, uma das figuras mais conhecidas da observação de aves na Colômbia, no Valle del Cauca, a quase duas horas de carro de Cali, terceira maior cidade do país. O terremoto que atingiu Cali em 10 de agosto não afetou o turismo nas regiões rurais. Dora chegou ao vale fugindo da violência das guerrilhas nos anos 1990, mas também enfrentou dificuldades da guerra civil por aqui. Por volta de 2010, quando vendia empanadas na estrada, começou a atrair os pássaros com bananas e nunca mais parou. O local virou parada obrigatória na rota dos passarinheiros internacionais. O comedouro ao lado de seu restaurante é ponto de encontro de saíras coloridas —os nomes indicam suas cores vibrantes, como a saíra-de-papo-prateado e o tangará esmeralda— além dos capitães-tucanos, um parente distante dos tucanos que só existe na Colômbia e Equador. No topo da casa, uma construção simples repleta de pinturas de pássaros, os bebedouros atraem beija-flores que tampouco ocorrem no Brasil. Colômbia e Brasil são destaques no cenário mundial de observação de aves. O vizinho lidera a lista de mais espécies de aves do mundo com cerca de 2 mil, enquanto o Brasil fica em terceiro lugar, atrás do Peru, com cerca de 1.900. Apesar do tamanho menor, a Colômbia compensa com variedade geográfica. Tem as altitudes dos Andes, as florestas úmidas da Amazônia, a proximidade com a América Central e ainda as costas banhadas pelo Pacífico e Caribe. Isso ajuda na diversidade da fauna e flora —eles possuem o maior número de espécies de orquídeas do mundo. Os colombianos também lideram quando o assunto é turismo de observação de aves, com políticas públicas específicas para o setor, como cursos de formação de guias especializados. O boom começou após o acordo de paz entre governo e guerrilheiros, finalizado em 2016, que abriu regiões biodiversas que antes eram inacessíveis por conta do conflito armado. "Os dois países se completam", diz Edson Moroni, membro da Associação Nacional de Turismo de Observação de Vida Silvestre (TOVS) do Brasil, que morou três anos na Colômbia. Ele lembra que, apesar de ter mais espécies, a Colômbia tem menos espécies endêmicas que o Brasil, ou seja, aves que só existem num único país (uns 85 contra uns 245). "Eles se posicionam muito bem com políticas públicas neste segmento de turismo, enquanto o Brasil ainda está se estruturando." Para visitar o santuário de Doña Dora, fui com o guia Luis Eduardo Camacho, dono da pousada Bosque de Niebla, onde me hospedei por três noites. É um empreendimento familiar bem aconchegante: sua mulher cuida dos agendamentos, e o filho estudante de biologia ajuda como guia. O local fica no km 18, uma área serrana a 50 km de Cali apinhada de pousadas, com meia dúzia dedicada aos passarinhos. A hospedagem com café da manhã e jantar, transporte ida e volta ao aeroporto, mais a visita de dia inteiro à Doña Dora, custou US$ 571 (aproximadamente R$ 2.900). Um agente cuja família é dona de uma pousada de luxo na região pediu US$ 2.250 (aproximadamente R$ 11.500) pelo mesmo pacote. O Bosque de Niebla tem bebedouros e comedouros caprichados, além de duas cabanas para ver espécies mais tímidas, como o tovacuçu-corujinha e a perdiz colorada. À noite, Camacho leva os hóspedes para caminhar pelas matas da propriedade e ver outros tipos de bichos, como sapos, aranhas e mariposas. De dia, é possível pegar a estradinha de terra a pé e conhecer outras pousadas do km 18, como o sítio Alejandría, um paraíso de beija-flores. De Cali fui para Manizales conhecer o departamento de Caldas, na cordilheira central. Os Andes colombianos cortam o país em três cordilheiras: ocidental (km 18), central e oriental, onde fica a capital, Bogotá. Manizales, grande centro produtor de café, também foi atingido pelo terremoto de agosto, mas a zona turística nas serras segue funcionando normalmente. Na praça central da cidade, a torre do relógio da catedral tombou. À sua frente, fica uma escultura gigante de um ser metade homem, metade condor-dos-andes, a ave símbolo do país. Peguei a Ruta Del Cóndor para tentar ver essa ave gigante, cujas asas chegam a três metros de envergadura. Foram quase duas horas de carro por uma estrada de terra firme, com lindas paisagens dos andes, ainda que recortados por plantações e fazendas de gado. Ao chegarmos na pousada Hostal La Laguna, dois condores vieram dar as boas-vindas com um belo rasante. Só fui vê-los de novo algumas horas depois, bem distante, voando entre urubus. O condor foi extinto nesta região, chamada Los Nevados, nos anos 1970 e reintroduzido nos anos 1990. Hoje, só sobrou por aqui o casal que vimos, formado pela fêmea Calima, nascida no zoológico de Cali, e pelo macho Pipintá, nascido num zoológico da Califórnia, EUA. No Parque Nacional Los Nevados, vimos outras raridades, ainda que minúsculas: os beija-flores Chivito del Ruiz, com uma barbinha roxa, e o Pico-espina Arcoíris, com uma barbinha colorida. Das cinco noites que passei em Manizales, conheci várias pousadas e reservas, levada pelo guia local e geólogo Luis Miguel Ramírez, também especialista em orquídeas. Na Hacienda El Bosque, uma fazenda de gado leiteiro que passou a fazer turismo de observação de aves, vimos tucanos de peito azulado comendo uvas, corruíras que vinham comer na mão, e três tovacuçus bem camuflados. Na Tinamú Birding and Nature Lodge, presenciei o lek de outra espécie, o Manaquim-de-pescoço-dourado, quase uma bolinha de penas amarelas e pretas a pular de galho em galho. A propriedade é espaçosa e repleta de surpresas, como uma cutia residente que vinha comer banana e um bacurau que cantava à noite no telhado. Já no Hotel Termales Del Ruiz, dei uma pausa nos passarinhos. Aqui é para curtir a paisagem a 3.500 metros de altitude, nas piscinas termais ao ar livre, aquecidas pelos vulcões da cordilheira. Mas não se preocupe: mesmo nas águas calientes, sem binóculos e câmeras, presenciei um belo desfile de beija-flores, atraídos pelos canteiros floridos das piscinas. BOGOTÁ Todo mundo sobe o teleférico de Monserrate para ver a vista espetacular da capital colombiana, mas eu subi pelos beija-flores. Lá no alto, a mais de 3 mil metros de altitude, fica um cantinho escondido chamado Sendero de Aves El Paramuno, uma trilha de 360 metros que abriga mais de dez espécies de beija-flores —ou, como dizem por aqui, colibríes. A entrada acontece com agendamento prévio (WhatsApp +57 314 3758082). Com ingresso, funicular ida e volta, e guia em espanhol por três horas, gastei 213 mil pesos (R$ 350). Mesmo com garoa, os beija-flores faziam fila nos bebedouros: inca ventrivioleta, chillón, estrelinha-de-barriga-branca e paramuno. Vimos também saíras vermelhas de montanha e pintassilgos-dos-andes. Há muitos tico-ticos, aqui chamados de copetón. O guia Luis Eduardo Parra levou bananas para alimentar os jacus andinos e encontrou um cometa coliverde, um beija-flor de cauda absurdamente longa que eu provavelmente jamais teria visto sozinha. Ao final, me juntei aos outros turistas para apreciar a vista da cidade e tomar um chá de coca no Restaurante Casa Santa Clara.

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