Sob inspiração do secretário da Saúde antivaxxer Robert Kennedy Jr., o governo Donald Trump reduziu os imunizantes recomendados para crianças e adolescentes. A versão anterior da lista elencava 18 doenças contra as quais todos os jovens deveriam ser vacinados; agora, são 11. Ficaram sarampo, caxumba, rubéola, difteria, tétano, coqueluche, pólio, Hib, doença pneumocócica, HPV e varicela. Já a imunização contra Covid, gripe, hepatites A e B, rotavírus, meningococo e vírus sincicial ficará reservada a pacientes de risco. A medida, que vem sendo discutida há meses, inclusive na Justiça, despertou uma enxurrada de críticas de especialistas. Nos Estados Unidos, cabe aos estados, não ao governo federal, determinar quais são os imunizantes obrigatórios. E eles em geral o fazem por vias indiretas, como exigir prova de vacinação na matrícula escolar. Entretanto as diretrizes federais são importantes, porque vários estados seguem as recomendações do CDC, a agência nacional de controle de doenças, que já gozou de muito prestígio. Há ainda a questão do financiamento —planos de saúde só são obrigados a pagar pelas vacinas que constam da lista oficial. Kennedy Jr. até tentou embrulhar seu pacote de erosão da saúde pública em um discurso civilizado. Disse que a lista americana ficou semelhante à da Dinamarca, país com indicadores muito superiores aos americanos. É verdade que várias nações europeias têm um calendário de vacinação infantil mais restrito que o dos EUA pré-Kennedy. A comparação descontextualizada, no entanto, é enganosa. Na Europa ocidental, a circulação de doenças infecciosas é menor do que na América do Norte e, mais importante, há sistemas de saúde universais robustos, ao passo que os americanos dependem de planos privados. Para quem cultuava a ideia de progresso da civilização, poucas mudanças culturais foram tão chocantes quanto o espraiamento da ideologia antivacina. A evidência de que a imunização funciona e foi uma das principais responsáveis pela brutal redução da mortalidade, especialmente a infantil, é massacrante. Estudos acadêmicos falam em mais de 150 milhões de vidas poupadas nos últimos 50 anos —e nem é preciso olhar para os dados atuariais. Na pandemia, vimos as taxas de óbito e hospitalização caírem rapidamente nos países que começavam a vacinar. É difícil compreender como alguém pode colocar sua vida e as de seus entes queridos em risco tão somente para demonstrar lealdade à tribo política. editoriais@grupofolha.com.br
Obscurantismo antivacina avan�a sob Trump
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