A gente nunca está preparada para a mensagem que começa com "você soube?". Foi assim que a morte do Bruno Avelar entrou na minha vida, num dia comum, no meio de uma agenda cheia de compromissos que, de repente, deixaram de ter qualquer importância. Um acidente, uma ausência sem aviso, e a sensação de que o chão tinha mudado de lugar. Bruno era desses amigos raros que chegavam inteiros. Nos encontros, não tinha pressa para ir embora nem pensamento em outro lugar. Estava ali de verdade, ouvindo com calma, fazendo cada conversa parecer a mais importante da semana. Só agora entendo que aquilo não era apenas um traço de personalidade, era uma escolha. Ele vivia o presente enquanto a maioria de nós apenas passa por ele. A gente passa boa parte da vida olhando para a linha de chegada. A promoção, o negócio próprio, a casa, a viagem planejada há anos. Nada de errado nisso; as conquistas importam e os sonhos movem a gente. O que a perda escancara, porém, é que o resultado dura pouco. O que fica é o caminho, as risadas no meio do trajeto, o almoço que virou tarde, o abraço sem motivo, as pessoas que andaram ao nosso lado enquanto a meta ainda parecia distante. Conquista é ponto de chegada; o caminho é onde a vida de fato acontece. Na vida profissional, aprendi a medir quase tudo. Metas, prazos, indicadores, crescimento. Há valor nisso, e não pretendo abrir mão. Só que nenhuma planilha registra o que o Bruno deixava em quem cruzava com ele, aquela leveza de sair de um encontro melhor do que chegou. Esse tipo de legado não aparece em balanço nenhum, e mesmo assim é exatamente o que as pessoas guardam. Uma contradição difícil de admitir marca a forma como lidamos com a morte. Sabemos que ela é a única certeza da existência, a única coisa que ninguém consegue negociar, adiar ou evitar. Ainda assim, vivemos como se houvesse sempre um amanhã disponível para a ligação que ficou para depois, para o café remarcado pela terceira vez, para a frase carinhosa que parece óbvia demais para ser dita. Quase sempre, só paramos para refletir quando alguém parte. A morte súbita tira de nós até o direito à despedida. No meu caso, a frase ficou guardada. Nunca disse ao Bruno, com todas as letras, o quanto ele foi importante na minha vida. Achei que ele sabia, e talvez soubesse, mas a certeza de que nunca mais terei essa chance pesa de um jeito que nenhuma agenda consegue esconder. O luto tem muito disso: a dor da ausência misturada à dor do que ficou por dizer. Escrevo este texto também como uma forma tardia de falar. Não para ele, que já não pode ler, mas para lembrar a mim mesma, e a quem estiver do outro lado da página, que carinho guardado não chega a lugar nenhum. Se existe algum aprendizado possível numa perda assim, talvez seja este. Estamos aqui de passagem, sem saber como nem quando vamos partir, e o único tempo que realmente nos pertence é o agora. Amigos, companheiros, colegas, as pessoas do convívio diário não são cenário da nossa história, são a própria história. Vale ligar hoje, marcar o encontro, dizer em voz alta o que o coração já sabe. Ninguém precisa de ocasião especial para isso. Porque a vida, no fim, não se mede pelo que alcançamos, mas sim por quem esteve com a gente no caminho. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Obrigada, Bruno, mesmo que tarde!
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