São Paulo Homens e mulheres estão reunidos em torno de um tapete em que ficam pequenos objetos. Usam vestes coloridas e participam de cerimônia do Dia dos Mortos na Guatemala, país que, assim como o México, celebra essa tradição. A cena é o mote da pintura "Día de los Difuntos: El Dinero Es para los Muertos", de Rosa Elena Curruchich (1958-2005). A artista retratou o modo de vida do povo maia kaqchikel em miniquadros durante tempos de guerra civil. Essa e mais 77 obras integram a exposição "Crônicas de Comalapa", em cartaz a partir desta sexta-feira (30) no Masp. Celebração de aniversário reúne mulheres e destaca tecidos tradicionais do povo maia kaqchikel - Eduardo Ortega/Divulgação As pinturas mostram o trabalho, as festas e as cerimônias religiosas da comunidade indígena de San Juan Comalapa durante um dos períodos mais violentos da história do país, marcado pela guerra civil (1960-1996) e pelo genocídio do governo contra populações indígenas no início dos anos 1980. Porém, Curruchich dispensou a ideia de pintar conflitos armados e a repressão de forma direta. Em vez disso, construiu uma memória visual das tradições de seu povo. Há também certa visão das etapas da vida nos quadros de Curruchich. Em "Van a Bautizar", a artista pintou cerimônia de batismo típica de sua infância. Em "Las Patojitas las Tres en su Cumpliaño Hace una Ceremonia de Ellas", mostra uma festa de aniversário de três adolescentes da comunidade maia kaqchikel. Em outra tela, aparece uma procissão que acontece nas ruas de San Juan Comalapa. Embora diferentes, as ocasiões têm elementos em comum que reforçam a cultura daquele povo, em especial as roupas bordadas, o estilo das casas e das ruas. Comalapa é considerada o centro da pintura maia atual, e Curruchich foi a primeira artista mulher a ter destaque na região. Seu avô, Andrés Curruchich (1891-1969), foi pioneiro entre os kaqchikel, mas a ascendência nobre nas artes não facilitou o sucesso comercial da pintora. Questões de gênero e preconceito contra o sincretismo religioso do povo kaqchikel despertaram hostilidade de outros artistas locais e de uma parte da população de origem católica. A fé aparece com mais ênfase na tela "Despedida de Confradías", em que Curruchich retrata uma confraria religiosa marcada pelo diálogo entre santos católicos e tradições religiosas maias. Quando fez a primeira exposição, em 1979, ela entrou em um mercado dominado por homens. Na década de 1980, deixou Comalapa e produziu suas pinturas longe da comunidade, mas nunca parou de retratar a terra natal. Nesse contexto, o tamanho das obras ganha importância. Algumas cabem na palma da mão, outras mal chegam a 20 centímetros de largura e altura. Isso facilitava o transporte e permitia que trabalhasse sem chamar atenção. O tamanho também favorecia o comércio das obras em regiões turísticas da Guatemala. Rosa Elena Curruchich: Crônicas de Comalapa Edifício Pietro Maria Bardi, Masp - av. Paulista, 1.510, Bela Vista, região central. Ter. das 10h às 20h. Qua., qui., sáb. e dom., das 10h às 18h. Sex., das 10h às 21h. De 30/10 a 4/4/2027. Ingr.: a partir de R$ 85
Obras de Rosa Elena Curruchich no Masp retratam cultura maia na Guatemala
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