O voto que a economia j� n�o explica

O voto que a economia j� n�o explica

O governo Lula 3 chega às eleições de 2026 com resultados econômicos que poderiam representar um trunfo eleitoral. A inflação permaneceu relativamente controlada, o desemprego atingiu níveis historicamente baixos, a renda real do trabalho avançou e a pobreza recuou. Ainda assim, o presidente terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL). Esse fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Na América Latina, eleições recentes mostram que resultados econômicos favoráveis não garantem continuidade política. No Uruguai, em 2024, o governista Álvaro Delgado foi derrotado por Yamandú Orsi, apesar da desaceleração da inflação e da recuperação dos salários reais. No Chile, em 2025, José Antonio Kast venceu Jeannette Jara, candidata apoiada pelo governo de Gabriel Boric, apesar dos avanços no controle da inflação e da retomada do crescimento. Esses casos parecem contrariar a expectativa de que bons resultados econômicos se convertam em vitória nas urnas. Afinal, por que isso nem sempre acontece? Explicações apresentadas no debate público apontam questões relevantes, como a persistência do custo de vida elevado, o endividamento das famílias e a dificuldade de transformar a recuperação da renda em percepção de prosperidade. Argumentamos que há, entretanto, um outro aspecto igualmente relevante e que tem ganhado pouco destaque nesse debate. Nossa hipótese é que a polarização afetiva, ou seja, a intensidade da rejeição e da hostilidade entre grupos políticos adversários, condiciona a influência dos fatores econômicos sobre as chances de continuidade dos governos. Para investigar essa questão, realizamos um estudo no Cedeplar/UFMG a partir de 62 eleições presidenciais em 16 países latino-americanos, entre 1994 e 2019. Nossos resultados sugerem que a economia ainda importa para a decisão do voto, mas sua influência depende do grau de polarização afetiva da sociedade. Em contextos de baixa polarização, mudanças em variáveis como inflação e gasto público podem influenciar parcelas expressivas do eleitorado, aumentando ou reduzindo a probabilidade de reeleição. À medida que a polarização cresce, essa influência diminui. Os choques econômicos afetam menos eleitores e perdem impacto sobre o resultado das urnas. Em níveis muito elevados de polarização, o efeito da economia deixa de ser estatisticamente significativo. Identidades políticas, lealdades partidárias e questões culturais passam, então, a pesar mais na decisão eleitoral. As consequências da polarização excessiva vão além das eleições. Um dos pilares da democracia representativa é a capacidade de premiar governantes que entregam resultados e punir os que fracassam. Esse mecanismo incentiva políticas capazes de melhorar as condições de vida da população. Quando a polarização enfraquece o vínculo entre desempenho e voto, esses incentivos se deterioram. A disputa política passa a responder menos aos resultados concretos das políticas públicas e mais à mobilização de identidades e antagonismos. Governar bem pode deixar de ser suficiente para assegurar apoio eleitoral.Faltam poucos dias para o segundo turno, marcado para o próximo domingo (25). Diante da polarização brasileira, apresentar indicadores econômicos favoráveis pode não bastar para definir o resultado. Isso não significa que a economia tenha deixado de importar. Inflação, emprego, renda e pobreza continuam afetando diretamente a vida das pessoas. Significa que os efeitos eleitorais do desempenho econômico são cada vez mais mediados por identidades, percepções e vínculos políticos. O desafio, portanto, não é apenas produzir bons resultados econômicos, mas garantir que eles sejam reconhecidos pelos eleitores. Quando a polarização rompe o elo entre desempenho econômico e voto, enfraquece-se também um dos mecanismos pelos quais a democracia incentiva a boa gestão pública. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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