O vibrador j� tratou histeria? Conhe�a a origem do mito sobre o prazer feminino

O vibrador j� tratou histeria? Conhe�a a origem do mito sobre o prazer feminino

Em um consultório da Inglaterra vitoriana, em 1880, uma paciente diagnosticada com histeria —doença que explicava praticamente qualquer mal-estar feminino— era estimulada manualmente pelo médico até sentir "alívio". Se feito dezenas de vezes ao dia, tornava-se um trabalho cansativo para qualquer profissional. No início do século 20, a medicina teria encontrado uma solução: o vibrador elétrico, capaz de produzir o mesmo efeito em menos tempo. A história reúne todos os ingredientes de uma boa trama: o escândalo de médicos provocando prazer sem perceber, a ironia de um aparelho superando os médicos em eficiência, mulheres driblando a repressão para obter prazer sob o disfarce do tratamento e pelas mãos de outra pessoa. A narrativa virou livro premiado, peça de teatro e o filme "Histeria". Só que nada disso aconteceu, segundo os historiadores Hallie Lieberman e Eric Schatzberg. Sustentada por décadas pelo livro "The Technology of Orgasm" (1999), de Rachel Maines, a versão só foi questionada quando Lieberman, então pós-graduanda, recebeu a tarefa de conferir, uma a uma, as fontes citadas em notas de rodapé de um livro de história. Ao escolher a obra de referência sobre brinquedos sexuais, notou que as fontes não respaldavam a versão, diz à Folha. "Achei que eu estava fazendo o exercício errado, que estava deixando passar algum passo importante", afirma a historiadora do sexo com doutorado pela University of Wisconsin-Madison. Começou, então, uma saga que se estenderia pelos nove anos seguintes, de tentar provar as inconsistências encontradas. Junto a Schatzberg, professor de História da Tecnologia no Georgia Institute of Technology, fizeram uma revisão minuciosa de todas as referências citadas por Maines —ele revisou textos médicos franceses, Lieberman focou as fontes em inglês. Para grego e latim, contaram com a ajuda de tradutores. Em vez de uma prática clínica de masturbação, encontraram evidências do uso dos dispositivos para tratamentos de surdez e fraturas, ou massagens em áreas como a coluna, cabeça, quadris e pescoço. E ao contrário da hipótese de que os médicos eram ignorantes sobre o orgasmo feminino, encontraram provas de que a medicina já entendia a função sexual do clitóris. "Se fosse ao contrário —homens sendo masturbados por enfermeiras até ejacular, sem que ninguém chamasse aquilo de sexual—, todo mundo acharia bizarro", diz Lieberman. Mas seria difícil driblar o que chamam de espiral do silêncio na academia. Doze revistas recusaram o artigo, e um editor os acusou de atacar pessoalmente a colega por apontarem que o trabalho dela era falso. O trabalho foi publicado em 2018 no Journal of Positive Sexuality —o artigo tornou-se o mais lido da história da revista. Os autores, no entanto, notam que a narrativa anterior ainda tem força na cultura popular. "É uma história boa demais para as pessoas criticarem. Tem o apelo pornográfico dos médicos, o mito de que as mulheres não entendem seus corpos e a ideia de homens sendo bizarros. Desmentir isso não é tão sexy ou divertido", diz Schatzberg. Na visão dos pesquisadores, a ideia de que os vibradores foram criados para o orgasmo é uma "fantasia erótica" que reforça o roteiro de que mulheres não têm agência sobre o próprio prazer —são passivas, "curadas" por médicos que sequer sabem o que estão fazendo. "Contamos a história da sexualidade feminina quase sempre assim: como o homem leva a mulher ao orgasmo. Raramente contamos a história de mulheres descobrindo sozinhas o próprio prazer", afirma Lieberman. O padrão atravessa boa parte da pesquisa sobre o corpo feminino, com atenção mediada por médicos, maridos, e uma ciência que demorou séculos para mapear a anatomia do prazer, acrescenta. O primeiro mapeamento em três dimensões dos nervos do clitóris foi divulgado neste ano por pesquisadores do Amsterdam University Medical Center, quase três décadas depois do mesmo feito no pênis —achado que deve orientar cirurgias de reconstrução após mutilação genital feminina. A anatomia básica do órgão levou séculos para ser reconhecida: só em 1998 a urologista australiana Helen O'Connell publicou o primeiro mapeamento completo, após constatar que os livros usados em sua formação o tratavam de forma superficial, quando não o ignoravam. A história do prazer feminino é menos atraente— foi só nos anos 1960 que a ativista Betty Dodson passou a promover, nos EUA, oficinas em que mulheres se reuniam para aprender a usar o vibrador para o próprio prazer, sem depender de um parceiro. "Isso sim é uma história genuinamente feminista", diz Lieberman. Por trás da desvalorização, segundo ela, está a lógica de que o prazer feminino, ao contrário do masculino, poderia ser ignorado sem consequência reprodutiva. A antropóloga Fabíola Rohden, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, documenta essa guinada. Até por volta de 1800, médicos acreditavam que o prazer feminino colaborava para a concepção e manuais chegavam a orientar maridos sobre como estimular as esposas para esse fim. Quando ficou claro que o orgasmo feminino não era necessário para a gravidez, o prazer da mulher deixou de ser prioridade —e passou a ser tratado como sintoma a controlar. "É a partir dessa fase que o prazer feminino passa a ser renegado", diz Rohden. A pesquisadora também encontrou respaldo histórico brasileiro para a tese de Lieberman: ao vasculhar teses da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, do período entre 1833 e 1940, não achou nenhuma menção ao uso de vibradores para tratar histeria. Ainda nos documentos da medicina brasileira, a desvalorização do prazer feminino aparece na pesquisa em andamento de Carolina Aita Flores, psicóloga clínica e perinatal, mestra em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal da Fronteira Sul e doutoranda em Saúde Coletiva no Instituto de Medicina Social da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Em análise sobre o discurso do CFM (Conselho Federal de Medicina), entre 2003 e 2023, ela não encontrou menções ao prazer ou ao orgasmo feminino. "A mulher ainda está completamente atrelada ao papel reprodutivo. Não tem quase menção nenhuma à sexualidade no sentido de prazer", afirma. Para Lieberman, a persistência do papel reprodutivo no discurso médico atual ecoa o problema central do mito do vibrador, uma vez que atrasa a discussão sobre o autoconhecimento e o prazer feminino. "As mulheres ao longo da história têm se masturbado e está tudo bem. E elas descobriram como fazer isso porque não são idiotas", diz. Todas Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres Procurada pela reportagem, Rachel Maines, autora do livro "The Technology of Orgasm", disse à Folha que os historiadores usam "essencialmente os mesmos dados" que ela usou, mas "interpretam de forma diferente" —e que "controvérsia acadêmica é saudável" para o avanço do campo. Diz não ter revisado a pesquisa desde a publicação do livro, mas se declara encantada com o fato de que outros autores tenham seguido explorando o tema com novos dados. Maines e Lieberman tiveram um único encontro presencial em um congresso de história da tecnologia. Segundo Lieberman, ela estava apresentando uma palestra crítica ao trabalho de Maines quando percebeu a autora na plateia. Ao final, viu-a caminhar em sua direção —mas, no último momento, Maines desviou e cumprimentou outra pessoa, sem se dirigir a ela.

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