O sonho dos anjos, o p�nis rijo de Netuno e o p�treo grito de Madalena

O sonho dos anjos, o p�nis rijo de Netuno e o p�treo grito de Madalena

Terça-feira, 6 de outubro. Ainda em Vilnius, ida à Galeria de Pinturas para ver "A Captura de Cristo", tela de vida tortuosa de Caravaggio. Ela sumiu por dois séculos e foi achada no quartel-general dos jesuítas de Dublin, em 1990. A em exibição aqui seria uma cópia feita pelo próprio Caravaggio. Estava em um museu de Odessa, de onde a roubaram em 2008. Reencontrada em Berlim, voltou à Ucrânia, mas veio para cá quando das primeiras bombas russas. Ela mostra a aflição de um apóstolo, o remorso de Judas no momento mesmo do beijo da traição, o desalento do Nazareno, os soldados romanos sem rosto e o próprio Caravaggio, autorretratado levantando a lanterna que ilumina a cena. De drama mais humano que religioso, o quadro prefigura a briga de rua em que o colérico pintor, quatro anos depois, enfiou a espada na virilha de um rival que sangrou até a morte. Quarta-feira. Para os estrangeiros, diz o historiador Carlo Ginzburg numa carta a Perry Anderson, a Itália está repleta de vestígios pré-capitalistas na paisagem, na gastronomia, nos costumes. Já para Stendhal, a Itália escapou à dinâmica que levou os franceses à vaidade obsessiva, os ingleses à monotonia e os americanos à compulsão por dinheiro. Por isso tudo, tomar um aperol na Piazza Maggiore de Bolonha é o que há. O sol de outono cai sobre a Torre dell’Arengo, se insinua no pórtico do Palazzo dei Banchi, imprime sombras na fachada inacabada —faltou dinheiro— da Basílica de San Petronio. No centro sem carros, tempos diversos se confundem nos resquícios da Idade Média, do Renascimento, do Barroco. Mas eis que o presente invade de chofre a epifania: uma passeata pela Palestina livre percorre o granito rosado do chão da praça. Quinta-feira. Papeio com uma senhorita que conhece bem as bibocas onde se come, a preços módicos, do bom e do melhor. Ela me conduz à Regina de Quadri, tugúrio na Porta Castiglione, que serve bombolone, doce que lembra nosso sonho de padaria. Embora chuvisque, somos abrigados pelos pórticos que cobrem as calçadas. Traçamos em silêncio respeitoso o ambrosíaco Santo Graal, preparado por anjos na cozinha do Paraíso. Vou com outra beldade ao Il Duca d’Amalfi, estabelecimento onde há o "vero" cafezinho napolitano —o "ristrettissimo", curtíssimo. A máquina de café, varonil e reluzente, parece um Rolls-Royce prateado. As colunas são de ladrilho, as xícaras de cerâmica e o café prova que o ordinário pode ser extraordinário. Mas tem razão um amigo que diz que o cafezinho italiano, de tão pequeno, devia ser de graça. Está no Santuário de Santa Maria della Vita a "Lamentação sobre o Cristo Morto", conjunto escultórico de Niccolò dell'Arca com sete figuras atormentadas. O auge do horror está estampado no semblante transfigurado de dor de Maria Madalena. D’Annunzio, o escritor, chamou-a de "grito da pedra", acertando na poética e errando na técnica: a estátua é de terracota. Sexta-feira. A Fonte de Netuno é a mais célebre da cidade, menos pelo maneirismo da escultura de Giambologna e mais pela fofoca que a envolve. A Igreja se assustou com a genitália do deus dos mares, que o artista projetara na proporção correta, e o obrigou a apequená-la. Giambologna teria se vingado dos curas com um "trompe d’oeil" —visto por trás, pela direita, o polegar de Netuno vira um rijo pênis. A vitrine de uma camisaria expõe uma daquelas que não precisa passar, é só pendurar no cabide. Pergunto à vendedora se é italiana. "Sì, sono italiana", responde, e esclareço: "Non la signora, la camicia". Ela ergue os braços, quase tem troço de tanto rir e diz que sim, sim, a camisa também é italiana. É tão expressiva, e a camisa tão bela, que levo cinco —todas brancas— pelo preço de quatro. Carlo Ginzburg diria que a alegre balconista é um vestígio da Itália pré-capitalista. Como sextou, a porchetta me tenta, mas escolho a piadina no I Panini di Mirò, barraca perto da Universidade de Bolonha, a mais antiga do Ocidente. Copérnico, que estudou nela, não sabe a iguaria que perdeu. Sábado. Giorgio Morandi nasceu e morreu aqui. Morava num apartamento com as irmãs, solteironas como ele, e pintava no mesmo quarto em que dormia. Para o crítico Rodrigo Naves, suas naturezas-mortas dão densidade a objetos banais —potes, bules, garrafas— e dignidade aos que os manuseiam; ou os contemplam no Museu de Arte Moderna. Suaves, elas se contrapõem à algaravia de imagens do mundo moderno, resistem ao caos. Só poderiam estar em Bolonha. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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