A inovação pública já não é um tema secundário no Brasil. Nos últimos anos, governos municipais, estaduais e federais passaram a criar laboratórios, lançar editais, mapear desafios, testar soluções digitais e se aproximar de startups, universidades e organizações da sociedade civil. O país aprendeu a colocar inovação na agenda. O problema é que colocar na agenda não significa sustentar no tempo. Estudos do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e da Enap (Escola Nacional de Administração Pública) indicam que 28,3% dos projetos de inovação pública não são mantidos após troca de gestão. Em políticas mais sensíveis à orientação política de cada governo, essa taxa chega a 30%. O dado expõe uma fragilidade conhecida da administração pública brasileira: até mesmo iniciativas bem estruturadas podem desaparecer quando muda a gestão, acaba o orçamento ou sai a equipe responsável. O desafio, portanto, mudou de natureza. Já não se trata apenas de convencer o setor público a inovar. Trata-se de construir condições para que a inovação sobreviva à rotina da máquina pública. O caso do Pitch Gov SP ajuda a entender o problema. Criado pelo governo de São Paulo para conectar startups a desafios públicos, o programa conseguiu mobilizar o ecossistema e testar soluções entre 2015 e 2019. Mas, na passagem do piloto para a escala, encontrou barreiras na antiga lei de licitações, que não previa a contratação de tecnologias com risco inerente. O teste funcionou. A implementação, não. Esse tipo de descontinuidade revela uma confusão frequente. Um governo pode contratar projetos de inovação sem, necessariamente, se tornar um governo inovador. Pilotos, protótipos e plataformas digitais têm valor, mas não bastam se não houver mudança concreta no serviço prestado ao cidadão, no tempo de resposta, custo, acesso ou na qualidade da política pública. A escala potencial é enorme. Compras públicas brasileiras movimentam R$ 1 trilhão por ano, equivalente a 16% do PIB (Produto Interno Bruto). É difícil imaginar um instrumento mais poderoso de indução econômica e tecnológica. A nova lei de licitações, a encomenda tecnológica e o contrato público para solução inovadora abriram caminhos para contratar soluções com maior segurança jurídica e foco em resultado, não apenas em menor preço. Ainda assim, a existência de instrumentos legais não resolve, por si só, o problema. A inovação pública depende de capacidade institucional. É preciso saber formular o desafio, estruturar a contratação, medir resultados, gerir riscos e aprender com a execução. Algumas experiências apontam caminhos. Recife (PE) mapeou desafios urbanos e organizou contratos em etapas de teste e validação. Salvador (BA) usou inovação para qualificar bases de IPTU e ampliar potencial de arrecadação sem aumentar impostos. O InovaHC, no Hospital das Clínicas de São Paulo, testou soluções tecnológicas em ambiente hospitalar. Em comum, esses casos mostram que a inovação ganha força quando parte de problemas concretos e opera com método. A experiência observada pelo Impact Hub em diferentes projetos de inovação pública em 2025 aponta para uma conclusão central: o que sustenta a inovação não é apenas a boa ideia, mas a governança documentada. Processos, papéis, critérios, indicadores e aprendizados não podem depender da memória de quem participou da execução. Quando isso acontece, cada troca de gestão obriga o poder público a recomeçar quase do zero. Governança documentada funciona como blindagem institucional. Ela registra decisões, dá previsibilidade, orienta equipes, preserva conhecimento e permite que a próxima gestão saiba de onde partir. Somada à formação de servidores e à manutenção de indicadores ativos, cria as condições para que uma iniciativa deixe de ser um projeto isolado e se aproxime de uma política pública. O Brasil já demonstrou que sabe experimentar. O segundo passo é mais difícil, menos visível e provavelmente menos atraente para a fotografia de lançamento. Mas é ele que define se a inovação pública será apenas uma sucessão de boas ideias interrompidas ou um caminho consistente para melhorar a vida das pessoas. Inovar no setor público, hoje, não é apenas começar diferente. É conseguir continuar. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
O segundo passo da inova��o p�blica � garantir continuidade
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