O risco mais perigoso quase nunca aparece no extrato

O risco mais perigoso quase nunca aparece no extrato

Existem perdas que assustam imediatamente e perdas que acontecem em silêncio. Curiosamente, a maioria dos investidores teme muito mais as primeiras. Uma queda temporária no extrato provoca angústia instantânea. Já anos de perda de poder de compra causados pela inflação costumam passar despercebidos. No mercado financeiro, muitas vezes o maior risco não é aquele que oscila diante dos olhos, mas justamente aquele que se acumula silenciosamente sem chamar atenção. Nesta semana, uma investidora me procurou orgulhosa por nunca ter "arriscado" seu dinheiro. Todo o patrimônio estava aplicado na poupança de um grande banco nacional. Para ela, o fato de o saldo subir todos os meses significava segurança absoluta. Quando perguntei quanto aquele dinheiro realmente rendia acima da inflação, veio o silêncio. O número no extrato aumentava. O patrimônio real, porém, quase não cresce. Esse talvez seja um dos maiores mal entendidos do mercado financeiro: confundir ausência de oscilação com ausência de risco. Quando um investimento pode apresentar resultado zero ou negativo em um mês, ele parece perigoso. Quando sobe devagar, sem sustos aparentes, transmite conforto. Mas conforto emocional e segurança patrimonial são coisas completamente diferentes. Muitos investidores acham que evitam riscos. Mas apenas escolhem riscos que não conseguem enxergar. Tecnicamente, risco é a incerteza sobre o retorno futuro. E isso vale para qualquer aplicação financeira. Dessa forma, não existe investimento sem risco algum sobre todos os aspectos. Nem poupança. Nem Tesouro Selic. Nem CDB. Nem imóvel. Nem dólar guardado em casa. Cada investimento possui riscos específicos. O problema é que aquilo que se tornou familiar costuma parecer automaticamente seguro. Até o Tesouro Selic, considerado um dos investimentos mais conservadores do país, já apresentou meses de rentabilidade negativa. Um CDB também possui risco de crédito, ainda que exista a proteção do FGC. Você pode passar alguns meses sem qualquer retorno enquanto aguarda a garantia. Um imóvel pode ficar anos sem valorização real ou gerar despesas inesperadas. Até dinheiro parado na conta corrente carrega um risco silencioso: perder valor sem que o investidor perceba. Uma inflação de 5% ao ano, como no Brasil, reduz pela metade o poder de compra em aproximadamente 14 anos. Ainda assim, muita gente considera arriscado um investimento que pode oscilar temporariamente 0,5% ou 2%, mas não percebe o risco gigantesco de empobrecimento lento causado pela inflação. No conceito teórico de ativo livre de risco, ele é definido como aquele que se sabe exatamente quanto se vai receber, no prazo de aplicação e na moeda selecionada. Esse seria o título prefixado do tesouro. Mas, imagine um investidor que compra um título público prefixado com vencimento em cinco anos e trava uma taxa elevada até o fim do período. Se carregar o papel até o vencimento, receberá exatamente a rentabilidade contratada. Porém, antes disso, o preço do título poderá oscilar bastante e, em alguns momentos, o extrato poderá mostrar perdas temporárias. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Para muitos investidores, essa oscilação parece prova de que o investimento é perigoso. Mas, o que importa a oscilação de mercado se você sabe que no vencimento vai receber o rendimento contratado? O risco real, nesse caso, depende muito mais da necessidade de resgatar antes do prazo do que da oscilação em si. Nesse caso, deve-se evitar ativos com prazo longo se pretende resgatar antes. E é aqui que entra um dos maiores problemas do investidor brasileiro: o desconhecimento. O investidor tende a considerar seguro aquilo que conhece e arriscado aquilo que não entende. Não porque o produto familiar seja necessariamente mais seguro, mas porque a familiaridade reduz o desconforto. E, no mercado financeiro, desconforto costuma ser confundido com risco. O problema é que essa confusão pode custar caro. Quem evita qualquer oscilação pode acabar assumindo um risco ainda maior: o de não alcançar os próprios objetivos financeiros. Preservar o valor nominal do dinheiro não significa preservar patrimônio. Ver o saldo subir todos os meses não significa enriquecimento. Às vezes, significa apenas perder lentamente poder de compra sem perceber. O verdadeiro investidor conservador não é aquele que evita qualquer oscilação, mas aquele que entende exatamente quais riscos está correndo, qual retorno espera receber e quais riscos silenciosos não aceita carregar ao longo da vida. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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