O que temos a aprender com as guinadas eleitorais, no Brasil e nos EUA

O que temos a aprender com as guinadas eleitorais, no Brasil e nos EUA

"Nós, o Povo". Essas palavrinhas, que aparecem no preâmbulo da Constituição americana, ganham significado especial com a vitória democrata nas eleições de meio de mandato. Mas, antes, cabe perguntar: o que os constituintes de 1787 queriam dizer com "povo", essa coisa tão abstrata quanto concreta, reiterada na primeira, segunda, quarta, nona e décima emendas? Lá atrás, a intenção de reunir os filhos de uma nação recém-criada não evitou a exclusão de mulheres, negros, escravizados e criminosos da vida pública. Mais tarde, legisladores procuraram estender a proteção constitucional para grupos sem capacidade de representar a si mesmos. E assim o povo, fonte emanadora do poder numa democracia, tornou-se essa ideia longeva que nos acompanha. Pensando nisso, olho para as guinadas eleitorais dos últimos dias. Aconteceram no Brasil, quando o presidente Lula desbancou seu adversário, o senador Flávio Bolsonaro, por uma diferença de 4,4 milhões de votos. Essa vantagem numérica tornou-se, ato contínuo, recipiente da vontade do povo brasileiro. Aconteceram também nos EUA, com a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato. Isso altera o comando das Casas do Congresso, impondo limites a um presidente autoritário, cujo despreparo político e o ego inflado fundem-se numa combinação negativa, geradora de reprovação. Portanto, seja no Brasil ou nos EUA, guinadas eleitorais expressaram a vontade de um rechaço social, sendo capazes de mudar a cara dos países em questão de dias ou horas. Donald Trump conseguiu fazer destas eleições um plebiscito sobre si mesmo. E perdeu. Há um cansaço geral em torno da sua figura autorreferente e gabola, que se vende como "o melhor presidente que este país já teve". Bem fizeram os democratas em manter os pés no chão durante a campanha, preferindo debater com os eleitores os impactos cotidianos de uma economia destroçada. Hoje a guerra contra o Irã não é só sinônimo de fiasco militar, mas, sobretudo, do aperto de vida sentido por milhões de americanos —do estudante ao professor, do imigrante ao empresário, do locatário ao hipotecário. Pesa no bolso viver em país onde a gasolina subiu 34% e o diesel 70% em um ano. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Enquanto isso, Trump gasta fortunas com um salão de festas na Casa Branca, numa de suas extravagâncias arquitetônicas. E o que dizer das suas levas de deportados, brutalmente executadas por agentes do ICE? A resposta veio agora, de virada, no repúdio latino aos republicanos. O Partido Democrata deve cantar vitória, sem dormir sobre os louros. Reconectar-se com a sociedade ainda é um desafio, assim como capitalizar a diversidade que vem das urnas. Com campanhas mais pobres, que incluíam voluntários batendo de porta em porta, os democratas foram longe ao eleger a primeira governadora negra, a primeira governadora indígena, o primeiro senador assumidamente gay, o primeiro senador muçulmano, entre outros ineditismos. Falo de candidatos que se apresentaram tal como são e como vivem, sem depender de pautas identitárias. Diversidade, esse é outro nome para "nós, o povo". Se Trump insistir na sua exaltação à supremacia branca, como, aliás, já fez, entrará para a história como o mais patético presidente americano. Antes disso, melhor pegar o boné Maga, sair de cena e não se esquecer de pagar muito bem os seus advogados. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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