O dr. Anthony Fauci, que durante os anos da pandemia foi a maior autoridade pública em epidemiologia nos EUA, apelou ao silêncio garantido pela 5ª emenda da Constituição durante uma audiência no Senado americano. Como os tempos mudaram! Há, é claro, um contexto político-partidário nessa história. Desde a pandemia, Fauci foi alçado a inimigo jurado pelos opositores do distanciamento social e da vacina. Isso motivou o ex-presidente Biden em 2025 a dar-lhe um perdão presidencial preventivo, o que só atiçou ainda mais a certeza de seus opositores políticos. Sua decisão de ficar em silêncio na audiência idem. Por baixo da espuma da política partidária, contudo, há questões reais suscitadas pela conduta de Fauci. O vazamento de seu diário pessoal dos dias da pandemia revelou um indivíduo obcecado pela fama e pela notoriedade repentinas a que a pandemia o alçou. Cada celebridade, cada programa de TV era registrado com evidente deslumbramento. Para além disso, vemos nos diários que o próprio Fauci reconhecia mais incerteza nas discussões em jogo —sobre as regras de distanciamento social e sobre a origem do vírus— do que dava a entender publicamente. Ele representava, nos EUA, a autoridade máxima em epidemiologia —para alguns, a própria voz da Ciência— e sua postura de pintar seus detratores como negacionistas ou inimigos da ciência não ajudou a acalmar o debate. No caso da origem do vírus, isso é ainda mais delicado. A agência que Fauci presidia financiava pesquisas de diversos institutos, inclusive um que fazia pesquisas com vírus no laboratório de Wuhan. À luz desse possível conflito de interesses, a tentativa de pintar os defensores de que a Covid-19 se originou de um vazamento laboratorial como teóricos da conspiração foi desonesta. Já se sabia na época —e o próprio Fauci sabia— que a tese da origem laboratorial era perfeitamente plausível; e continua a ser. (Ressalte-se: vazamento acidental. Não há nenhuma evidência para um vazamento intencional.) Em suas falas públicas, contudo, qualquer voz contrária a suas propostas era um maluco ou oportunista anticiência. Talvez seja o pior legado da pandemia: a ideia, presente no debate público até hoje, de que uma decisão de política pública se siga de maneira automática, quase mecânica, de um parecer científico qualquer, ou mesmo do consenso de especialistas de uma área. Como toda política envolve necessariamente várias áreas —eficácia médica, impacto psicológico, impacto econômico, desgaste político, adesão popular etc.— nenhum especialista está na posição de dizer que uma política é holisticamente a melhor. É por isso, aliás, que a política democrática existe; se não, bastariam os painéis de especialistas. Fauci não foi a Ciência Encarnada revelando a verdade enquanto as trevas do negacionismo o atacavam, e tampouco foi um bandido conspirando contra o povo americano. Foi uma autoridade de saúde num momento difícil que se viu com muito poder e prestígio em mãos. Mascarar a incerteza inerente a qualquer decisão política com o discurso de uma Ciência intocável talvez simplificasse as decisões e facilitasse a adesão pública imediata. Mas também semeou a descrença contra as instituições científicas e contra os "especialistas" em geral, que continua a crescer tanto lá quanto aqui. A conta chega. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
O que revelou o dr. Fauci
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.