O que realmente est� em jogo nesta elei��o?

O que realmente est� em jogo nesta elei��o?

Democracia é uma dessas palavras-chave que vêm sofrendo de polissemia. Estamos atravessando um momento que pode ser divisor de águas. Infelizmente, a defesa de direitos e o compromisso com a redução das desigualdades aparecem hoje nos discursos de diferentes campos políticos, tornando mais difícil distinguir projetos que, na prática, podem produzir consequências muito diferentes. Estamos desgastados pelas disputas, bombardeados por informações de todo tipo. Quase tudo se dilui, os argumentos se confundem e posições antagônicas acabam parecendo equivalentes. Mas mais do que disputar quem tem razão, é hora de olhar para uma questão maior, que não pode ser secundária: que regime político estamos escolhendo construir? É verdade que há críticas e equívocos a serem considerados. Mas o dilema atual é de outra magnitude. Divergências sobre economia, ajuste fiscal, juros, educação, inclusão, saúde, segurança, agro, indústria e tantas outras dimensões da vida nacional são fundamentais. Todas, porém, pressupõem algo anterior: a existência de instituições que garantam regras estáveis, direitos, limites ao exercício do poder e condições para que as divergências sejam debatidas e negociadas sem arbitrariedade. É sobre isso, também, que decidiremos no dia 25 de outubro. A composição da Câmara dos Deputados e do Senado já aponta para um país com representação conservadora e forte presença de forças de direita. Isso, por si só, não é um problema para a democracia. A alternância de poder é legítima, necessária e bem-vinda. No entanto, quando a promessa de mudança encobre um projeto de concentração de poder, enfraquecimento dos controles institucionais e perpetuação de um grupo no comando do Estado, aí já temos um sinal de alerta. É legítimo querer renovar, estar decepcionado com o governo ou discordar de Lula. Mas é preciso distinguir mudança de governo de modificação das regras que sustentam a democracia. A primeira faz parte do jogo democrático. A segunda pode comprometer a própria possibilidade de continuarmos escolhendo nossos representantes livremente. Nem toda mudança representa avanço. É preciso olhar para o projeto de poder que está por trás das promessas. Basta olhar para países vizinhos e para outras regiões do mundo para perceber que estamos diante de uma onda de retrocessos, marcada pelo enfraquecimento das instituições e pela fragilização das regras democráticas. O risco de uma vitória do bolsonarismo vai além das políticas que um eventual governo possa implementar. Está também na possibilidade de instrumentalização do Estado para atender a interesses de grupos, no enfraquecimento das instituições que limitam o poder e na construção de mecanismos que dificultem a alternância política. Um Estado não existe para servir a quem o ocupa, mas à sociedade. E o poder público não pode ser tratado como instrumento de um projeto particular de poder. Por isso, fazemos um apelo para que, independentemente das preferências partidárias, das decepções com o governo atual ou das mágoas que possam ter ficado da eleição passada, consigamos olhar para o que está em jogo em uma perspectiva mais ampla. Não se trata apenas de escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro. Trata-se de decidir em que condições queremos viver e fazer política nos próximos anos. Não é preciso concordar com Lula em tudo para reconhecer que a democracia exige instituições preservadas, respeito às regras e disposição para negociar e construir soluções coletivas. É isso que permite que governos sejam criticados, corrigidos e substituídos sem que se coloque em risco o próprio sistema que torna essas escolhas possíveis. Depois do segundo turno, qualquer que seja o resultado, teremos um país diferente. Mas ainda podemos escolher entre um país conduzido por uma visão única, com poder cada vez mais concentrado, e outro em que as diferenças possam se expressar, disputar caminhos e construir acordos dentro de regras compartilhadas. Não é sobre os candidatos. É sobre nós! Porque a democracia não se resume a votar. É garantir que continuemos podendo escolher, discordar, fiscalizar, negociar e mudar de rumo. É isso que precisamos proteger. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.