Cheguei ao Japão há cinco dias e não esperava o que vim encontrar. O que mais me impressiona não é o fato de o Japão ser exótico, é o fato de eu ser exótico no Japão. Eles são rigorosos, competentes, pontuais. Portanto, eu destoo. Achava que era relativamente civilizado, mas descobri que sou um completo selvagem. No caminho para cá, li algumas recomendações, que ficavam cada vez mais estranhas. Primeiro, eram dicas sobre traços gerais de comportamento: fale baixo no transporte público, não fume na rua, essas coisas. Eram sobretudo apelos à contenção. Há menos barulho em Tóquio às três da tarde do que em São Paulo às três da manhã. Mas depois as instruções de conduta foram ficando cada vez mais restritivas: não fale no elevador, não use perfume muito forte, não use tênis de cores muito berrantes. Comecei a sentir que, em vez de visitar o Japão, estava me preparando para ir à casa de uma tia velha e severa que se irritava com facilidade. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Como assim, não fale no elevador? Que deus do elevador estarei desrespeitando se ousar dizer alguma coisa naquele cubículo? Como assim, não use perfume muito forte? Quem vai me cheirar no Japão? Será que é plausível eu estar atravessando uma rua em Tóquio (sempre na faixa de pedestre!, nunca com o sinal vermelho aceso!) e um grupo de pedestres locais me abordar para dizer que o cheiro que estou exalando é inaceitável ali? Como assim, não use tênis de cores berrantes? Eu vejo vídeos de japoneses andando na rua vestidos de personagens de "Dragon Ball". O Son Goku vai me parar numa esquina e me alertar para o fato de que meus tênis têm um tom de amarelo meio agressivo? Depois, cheguei ao hotel em que estou hospedado. Fui fazer o check-in. Enquanto o recepcionista preenchia os papéis, comecei a olhar em volta e tamborilar distraidamente os dedos no balcão. O recepcionista parou de escrever, fez uma reverência e apontou para minha mão com uma careta de suave reprovação, indicando que eu devia parar de bater com os dedos na mesa. Querem que eu fique quieto e calado. Minha avó reencarnou em Tóquio, na forma de 13 milhões de japoneses. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
O que me impressiona no Jap�o n�o � ele ser ex�tico, mas eu ser um selvagem
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