O que Lula 4 pode fazer para domar o p�nico dos donos do dinheiro grosso

O que Lula 4 pode fazer para domar o p�nico dos donos do dinheiro grosso

Os patinetes que congestionam as ciclovias da Faria Lima sabiam que esta segunda (26) seria de pânico. Os donos do dinheiro grosso e os povos dos mercados em geral entraram no final de semana achando que, depois de Lula 3, viria Bolsonaro 2. Houve gente que viajou para a Boa Vista ou para a Grama e nem votou (são nomes de condomínios de lazer para ricos no interior paulista). Para o choque de muitos e surpresa geral (deste jornalista inclusive), veio Lula 4. Muita gente perdeu dinheiro e quase todo mundo teve de mudar as aplicações com medo de perder ainda mais, para dizer a coisa de modo caseirinho. No entanto, apesar de lermos tantas histórias de "recordes", "derrete" e "dispara", do noticiário em geral dramático e anedótico, este dia seguinte não é lá relevante. Vamos saber nas próximas semanas se a situação vai piorar para valer. Pode ser até antes, caso Lula 4 dê sinais de alheamento da realidade, como o fez Lula 3, mas agora em situação econômica e política bem mais difícil que a de fins de 2022. Ainda que saiba se equilibrar no fio da navalha colado na corda bamba, Lula 4 precisaria de meses para assentar o tumulto e abater desconfianças maiores —descrédito. Para começar, precisa de crédito porque o governo toma muito dinheiro emprestado. Mas não só. Por outro lado, terá de falar com a militância excepcional, com os milhões que se dedicaram de corpo e alma em ruas e redes para salvar sua reeleição, e com os milhões de danados da terra de sempre neste país pobre e desigual. É preciso enfatizar a diferença. A esquerda tem deixado a pobreza, a falta de crescimento econômico, um tanto de lado. Este dia seguinte do segundo turno foi de "recordes" negativos por causa óbvia da inversão abrupta e surpreendente de expectativas, mas também porque é extensa a incerteza sobre o que será da política macroeconômica, ainda mais em um novo mandato sob política difícil. O dia foi ruim assim? Foi, mas dentro da ruindade esperada. Houve reversão das melhoras de preços vistas no dia seguinte ao do primeiro turno e um pouco mais, ao menos até o início da tarde desta segunda, com algum exagero, "overshooting". A esta altura, taxas de juros voltavam aos níveis piores do ano, os do início de junho de 2026, ou um pouco mais. A aversão ao real foi um pouco maior (o "dólar subiu"). O Ibovespa, a reboque, não chegou a voltar ao nível deprimido de meados do ano. O risco-país (que estava bem baixo) deu um salto, mas um dia só diz pouco. Não é conspiração, como ainda é preciso dizer a pessoas desabituadas a essas coisas, ou "retaliação", como dizem até economistas do governo. Considere-se o mercado de títulos de dívida, de juros. Quando o ido Flávio Bolsonaro (PL) venceu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno, aumentou a expectativa de algum conserto nas contas públicas (quer dizer, basicamente, crescimento menor da dívida do governo). Dívida andando mais devagar implica, tudo mais constante, taxas de juros menores adiante, o que quer dizer preços de títulos em alta. Mesmo na hipótese mais arroz com feijão caseirinho, você perde dinheiro se não levar em conta esse movimento. Naquele momento, não importava se Bolsonaro 2 iria fazer algum conserto. Mudara a percepção, a probabilidade, de mudança. Simples assim. Trata-se de dinheiro. Não importa se "o mercado" gosta de Lula (e lá quase ninguém gosta dele mesmo). O que se vê hoje é a inversão desse movimento. Para que taxas de juros e de câmbio não permaneçam nestes níveis ainda mais daninhos, Lula 4 vai ter de ganhar crédito, o que não será fácil, é óbvio. Se não fizer nada, esta segunda vai ser refresco. A situação pode ficar ingovernável. Lula 3 teve algum crédito com donos e administradores de dinheiro grosso até meados de 2024, quando começou a alterar as regras fiscais que ele mesmo aprovara havia poucos meses (para piorar, o tempo deu uma fechada na economia dos EUA). No final de 2024, com um pacotinho fiscal deplorável (e mais rolo financeiro mundial), Lula 3 perdeu o crédito. A coisa desandou. Por vezes e em certa medida, essas degradações financeiras passam logo. No início de junho deste ano, as taxas de juros subiram por contaminações externas e medo de Lula 4. O povo dos mercados dizia de resto, naqueles dias, que a economia brasileira ainda estava muito aquecida, que não haveria mais cortes da Selic (viriam vários), que o mercado de dívida do governo estava disfuncional, que o Tesouro deveria intervir (ajudar quem estava perdendo) etc. Não era assim. O problema agora, no entanto, não é circunstancial. Lula 3 jamais entendeu o problema das contas públicas. Fernando Haddad até tentou dar um jeito, ofereceu planos de mudanças moderadas. Foi vetado pela camarilha luliana. Em dezembro de 2024, estava derrotado de vez. A dívida pública continuou a explodir. O histórico, pois, é muito ruim. A campanha de Lula 4 não deu indício de que um novo governo teria novo rumo. A situação da dívida é pior. O crescimento de 2027 será menor. É mais difícil fazer conserto em ano de crescimento mais baixo do PIB, com crescimento menor de receita, se algum. De quebra, Lula 3 deixou um buraco fiscal extra de algo em torno de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões. A elite política eleita é mais direitista e anti-Lula. Por outro lado, Lula foi eleito com um movimento extraordinário da militância. O que dirá a essas pessoas? Como se não bastasse, fez mais promessas caras. Quase metade do eleitorado tem aversão a Lula. O governo deve estrear com nível medíocre de popularidade, como tem sido o caso desde 2018. Um ano de economia difícil tende a talhar ainda mais o prestígio presidencial. Haverá menos emprego e salário quando ainda há muita dívida para purgar, com juros ainda altos. Ao menos em tese e de início, o Congresso será mais indócil. Para controlar a situação, Lula 4 teria de fazer uma grande concertação, um grande acordo político, abrir mão de poder (como o PT não faz). Enfim, teria de fazer tudo o que não fez no início de Lula 3, quando a situação macroeconômica era menos difícil e havia mais boa vontade da política e até de "o mercado". Lula 3 não entendeu a situação: bolsonarismo forte, redes sociais, dívida pública e privada ruins, nível de preços alto etc. Achou que estava em 2010. Está em um 2026 pior que 2022. Terá de fazer consertos econômicos (contenção de gastos), apresentar um plano fiscal de longo prazo crível, com lideranças econômicas e políticas capazes de implementá-lo. Terá de fazer alianças profundas, de fato, se mostrar um líder que vai propor a sério conciliação (quando muita gente quer a cabeça dele). Ao mesmo tempo, precisará dizer dessas dificuldades ao povo. Isso em um ano cinzento na economia, na melhor das hipóteses, ressalte-se. É uma tarefa para gênio político, com muito pé no chão. Para começar, Lula 4 tem de arrumar uma marca para sua política econômica. Isto é, nomes de alto nível que representem mudança. Só para começar. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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