O que impede o Brasil de melhorar

O que impede o Brasil de melhorar

Qual é o principal problema do país? Faço aqui a minha aposta. Nos últimos tempos, atribuí nossas mazelas à polarização política e ao enfraquecimento do centro democrático. Continuo convencido de que são questões prementes. Basta lembrar que, em outubro, pela terceira vez, o Brasil optará entre dois candidatos rejeitados igualmente por metade dos eleitores. Mas o beco ao qual o populismo nos conduziu é consequência, não causa. Entendo que o entrave central é a degradação da capacidade de representação, mediação e construção de consensos da nossa democracia. Vivemos uma grave crise de governança, que trava a implementação das melhorias que o país demanda. Sem capacidade de representar os diferentes interesses da sociedade, arbitrar conflitos, estabelecer prioridades e articular maiorias políticas, o país permanecerá abaixo do seu potencial. Nossas instituições e mecanismos políticos responsáveis por construir projetos coletivos para a evolução socioeconômica perderam força, legitimidade e eficiência. E, nesse vazio, entre outras mazelas, emergiu ainda mais o populismo, que se alimenta de ilusão e maniqueísmo. Há convergência entre especialistas: o Brasil só ingressará em uma trajetória sustentada de prosperidade se conseguir realizar um conjunto de reformas estruturais e melhorias incrementais na economia, na gestão pública, no sistema político, na educação, na saúde, na segurança e na agenda climática. As medidas capazes de produzir transformações estruturais são, em essência, antipopulistas: exigem escolhas difíceis, impõem custos e não oferecem benefícios no presente para gerar resultados efetivos no futuro. Não faltam diagnósticos nem proposições embasadas para o Brasil evoluir. Ao contrário. Ocupando vazios deixados por governos e partidos políticos, organizações da sociedade civil vêm produzindo estudos e formulando políticas de Estado com base científica para os nossos principais desafios. Sabemos o que precisa ser feito. O que nos falta é capacidade política para transformar conhecimento em ação, interesses dispersos em objetivos comuns e iniciativas pontuais em estratégias de longo prazo. Não conseguimos rever privilégios perpetuados, reorganizar as contas públicas, enfrentar interesses corporativos, aprimorar o Estado. Conhecemos as soluções, mas não temos capacidade para implementá-las e sustentá-las. Vivemos sob o império do improviso, da recompensa instantânea, do conflito permanente, da fragmentação. Precisamos reconstruir as condições que permitam à nossa democracia funcionar melhor e entregar melhores resultados. Há amplo espaço e necessidade de a sociedade civil também assumir o protagonismo no aperfeiçoamento dos nossos mecanismos de representação política e organização democrática. Nada indica que esse movimento virá da atual estrutura de poder. Temos boas propostas em segmentos dessa frente. O que falta é uma iniciativa capaz de conectá-las, orquestrar uma agenda comum e transformar conhecimento e ação dispersos em incidência potente sobre o sistema político. Precisamos de uma organização civil estratégica que promova uma coalizão entre as demais organizações que trabalham em políticas públicas, com a missão de recriar as condições necessárias para o Brasil tomar as decisões difíceis e realizar transformações estruturais de que tanto carece. Uma plataforma que consolide conhecimentos, diagnósticos e propostas, mobilize atores-chave e articule a implementação de mudanças, atuando de forma estratégica, persistente, suprapartidária e apartidária para aperfeiçoar o funcionamento da democracia brasileira e da governança do país. Uma organização dedicada ao aperfeiçoamento da infraestrutura institucional para que o sistema democrático priorize o interesse público. Se fortalecermos nossa capacidade de representação, mediação e coordenação política para a construção de consensos, estaremos mais aptos a definir prioridades para enfrentar nossas pragas históricas: a desigualdade estrutural, o patrimonialismo, o corporativismo e o clientelismo. Uma democracia funcional, capaz de colocar o Brasil no rumo da prosperidade, inclusão, sustentabilidade e estabilidade institucional, é o melhor antídoto contra a sedução dos atalhos autoritários. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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