O culto da vulnerabilidade é uma das faces mais ativas da moda de reconstrução da masculinidade e, além disso, não tenho dúvida de que a "macheza" tão atávica à condição masculina seja um passivo, tanto para o homem quanto para a mulher. Porém, há duas questões que se impõem nesse discurso histérico sobre o tema. A primeira é que não se resolvem questões como esta com política. A política, para temas como esse, lembra um elefante numa loja de cristais. Aliás, esse fenômeno da crítica política da masculinidade pode ser elencado como um exemplo do que o autor belga Anton Jäger chama de hiperpolítica, em seu livro homônimo. Muita política em todo lugar, enquanto a política que deveria operar no seu registro de direito —na governança dos países e nas suas relações internacionais— está cada vez mais numa condição de hipopolítica, ou seja, perde-se na inércia.Um dado interessante dessa moda de redefinição da masculinidade é que os homens gays e os homens trans estão se tornando os gurus do que é ser homem. Não percam os próximos capítulos dessa ópera bufa. Outra questão, mais sutil, é a seguinte. Se associarmos o conceito de vulnerabilidade ao de sensibilidade, sempre muito próximos, será que as mulheres heterossexuais —ainda em maioria, mas que perderão este posto em breve— de fato suportam homens sensíveis para além da página 3? Não devemos responder a esta questão de forma muito rápida. Um detalhe fundamental é que os inteligentinhos, sempre de plantão, não entendam essa pergunta como um estímulo à boçalidade masculina. Aliás, a tendência a este tipo de interpretação ligeira é típica da politização do tema, à qual fiz referência logo acima. Hoje, todo tratamento político no âmbito da personalidade e dos papéis sociais de homem e mulher tende ao marketing de comportamento e ao seu derivado, a histeria coletiva. É fato que tais papéis têm preponderância histórica, para além de qualquer tratamento evolucionário do tema, considerado, hoje, infame e machista. Permanecendo no âmbito estritamente histórico, enquanto tal, a dúvida é, qual a consistência da repetida passagem direta da constatação de que existe um componente histórico e social nesses papéis para a ideia de que a militância política seria uma resposta consistente para essa questão? Nem mesmo a experiência histórica existente nesse campo sustenta uma hipótese política de trabalho consistente. Nada há de evidente na dita "construção histórico-social" que implique sucesso na manipulação dela. Não temos a mínima ideia de como a tal "construção histórico-social" se dá na espessura da "longa duração", como dizia Fernand Braudel. Não se sabe, com precisão, como resolver o trauma da falsa invulnerabilidade masculina, enquanto causa de sofrimento para ambos os sexos. A própria dita "emancipação feminina" foi empurrada pelo capital, assim como a escravidão acabou por conta da Revolução Industrial. Aliás, para quem quer empurrar a relação entre homem e mulher para o lugar da nova luta de classes, é bom lembrar que a luta de classes original deu ruim, com totalitarismo cruel e miséria econômica. Para além desse problema metodológico do caso masculino, o que viria a ser o valor positivo da vulnerabilidade enquanto tal, como objeto de culto? Por que cultuar a vulnerabilidade seria uma coisa boa? O oposto desse culto não é o culto da boçalidade. Vulnerabilidade é uma condição dada de todo ser vivo que implica sofrimento. Cultuá-la é só mais uma dessas modas ridículas do contemporâneo. Por outro lado, o culto da vulnerabilidade está, aparentemente, vinculado ao mercado da saúde mental e à entrada do vocabulário das psicoterapias na educação, na política e na mídia, ou seja, na cultura em geral. Fato observado por autores como Christopher Lasch, no final dos anos 1970, e Frank Furedi, no início dos anos 2000, período no qual o crescimento de uma "sensibilidade terapêutica" começa a se impor a partir do final da era hippie. Esse culto da vulnerabilidade é uma das inúmeras sequelas que a contracultura deixou como atraso. Confessar sofrimento psíquico passou a ser uma boa identidade para ser cultuada e, acima de tudo, passou a existir a suspeita de que quem não confessasse alguma vulnerabilidade psíquica não seria de confiança. De um ponto de vista filosófico, esse culto da vulnerabilidade seria mais uma das manifestações do ressentimento identificado por Nietzsche no final do século 19. Cultuar a vulnerabilidade me parece uma forma de negar a inveja de quem não lambe suas próprias feridas em público. Ou seja, um narcisismo que não confessa seu nome. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
O que h� a ser cultuado como valor positivo na vulnerabilidade masculina?
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