A Netflix está passando por um período de turbulência ainda não muito bem esclarecido. Há duas semanas dispensou cerca de mil funcionários, de diferentes áreas, o equivalente a 6% da força de trabalho. Foi a maior demissão em massa da história da empresa. Os sinais de que a crise tem relação com o conteúdo produzido e oferecido aos assinantes foram explicitados com os cortes de dois funcionários no topo da cadeia de criação. Para surpresa geral, perderam o emprego a principal executiva de conteúdo, Bela Bajaria, e o executivo responsável pelos filmes da empresa, Dan Lin. Bajaria havia sido promovida ao cargo de chefe maior de conteúdo no início de 2023. Na ocasião, numa entrevista à New Yorker, ela usou uma imagem gastronômica para explicar o tipo de série ideal que a Netflix ambicionava produzir –um "cheeseburger gourmet", ou seja, um programa que fosse ao mesmo tempo comercial, de fácil compreensão, mas com algo diferenciado, "premium". Um ano depois, Bajaria reivindicou para a Netflix o status de produtora de conteúdo de qualidade. "Sei que algumas pessoas dizem que você não pode fazer TV ou filme de qualidade se fizer mais de quatro títulos por ano", disse ela. "Mas podemos, e fazemos —e muito mais." As boas intenções não foram suficientes. Nos últimos anos, a empresa foi bem-sucedida com alguns lançamentos, mas nenhum alcançou o status de sucesso indiscutível ou de assunto no mundo inteiro, como ocorreu no passado com "Stranger Things" ou "Round 6". É verdade que a Netflix conseguiu prestígio com algumas boas produções, como "Bebê Rena" e "Adolescência", mas a produção média não vem registrando o brilho de outros tempos. É sintomático que neste ano a Netflix tenha conquistado o menor número de Emmys em uma década. Segundo o colunista Lucas Shaw, da Bloomberg, o cliente médio está passando menos dias por mês e menos horas assistindo à Netflix. Shaw avalia que as mudanças no comando da área de criação podem estar associadas a uma dificuldade da Netflix na gestão dos seus maiores nomes, ou "talentos", como se diz na indústria. A empresa perdeu alguns deles nos últimos tempos, como os irmãos Duffer, criadores de "Stranger Things", Noah Baumbach e David Fincher. O novo chefão de conteúdo, Peter Rice, ocupou cargos de chefia em empresas tradicionais, como Disney e Fox. Na visão de Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, "em um mercado competitivo, os talentos criativos têm opções de onde querem trabalhar e queremos que a Netflix seja sempre o lugar onde eles amam fazer o melhor trabalho de suas vidas". Problemas de outras ordens também afetam a Netflix. Como registrei recentemente, o impacto do YouTube sobre as plataformas de streaming é cada vez maior. A plataforma de publicação de vídeos hoje tem o dobro da audiência da Netflix nos Estados Unidos. Em resposta, a Netflix está fazendo acordos de exibição de conteúdo com youtubers. Também tem investido em podcasts. Outra área de interesse são os esportes ao vivo —a empresa anunciou recentemente que terá os direitos de exibição de todos os jogos da Copa do Mundo de 2030 na Espanha. Também vai exibir nos Estados Unidos todos os 64 jogos da Copa do Mundo feminina, que ocorrerá no Brasil no ano que vem. Com estimados 325 milhões de assinantes no mundo, previsão de gastos com conteúdo da ordem de US$ 20 bilhões em 2026, a empresa afirma atingir um bilhão de pessoas. Não à toa, cada passo que dá ou deixa de dar interessa tanto. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
O que explica a turbul�ncia na Netflix
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