O que esperar da revis�o metodol�gica do PIB brasileiro?

O que esperar da revis�o metodol�gica do PIB brasileiro?

Entre o fim deste ano e o início de 2027, o IBGE deverá publicar uma nova série do Sistema de Contas Nacionais, com ano-base 2021, em substituição à Referência 2010, em vigor desde março de 2015. Será a terceira grande revisão metodológica do PIB brasileiro em duas décadas. A julgar pelas anteriores e pelo padrão recente das revisões anuais, o país amanhecerá "mais rico" no papel: o nível do PIB nominal tende a ficar ao menos 4% a 5% acima do estimado hoje (cerca de R$ 13,7 trilhões em 2026). Convém separar dois efeitos. O primeiro é "mecânico" e ocorreria mesmo sem a atualização da metodologia. Desde novembro de 2024, o IBGE suspendeu a divulgação das tabelas completas de recursos e usos para concentrar a equipe técnica na elaboração da nova base. Com efeito, a última leitura "definitiva" do PIB brasileiro é de 2021. Os anos de 2022 a 2025 contam com estimativas ainda preliminares. Historicamente, essa transição das estimativas preliminares para as definitivas está associada a revisões para cima do PIB. De 2012 a 2021, sempre sob o mesmo marco metodológico, o crescimento em volume foi revisado para cima em todos os anos, em cerca de 0,35 ponto percentual na média, ao passo que a variação do deflator (a "inflação" do PIB) foi revista em cerca de 0,9 ponto percentual. Somados esses efeitos, o PIB nominal foi revisado para cima em 9 dos 10 anos (a revisão média anual foi de +1,2%). Caso esse padrão médio de revisão observado em 2012-21 se mantenha em 2022-24 —a nova série deverá trazer 2024 como ano mais recente—, o nível nominal de 2024 tenderia a subir em quase 4%. Caso prevaleça o padrão médio mais recente, de 2018-21, a alta do PIB nominal em 2024 pode se aproximar de 5%. O segundo efeito que deverá ocorrer é aquele associado ao aperfeiçoamento metodológico propriamente dito: novo ano-base, novas fontes de dados, pesquisas estruturais mais recentes (como o Censo demográfico de 2022) e recomendações mais recentes do manual internacional SNA 2025 (que atualizou o SNA 2008).Nas transições anteriores, esses tipos de revisão aumentaram bastante o PIB nominal brasileiro: +11% no nível do PIB em 2007 e +5,5% em 2015. Não dá para cravar que isso se repetirá, mas vários fatores indicam que poderemos ter um acréscimo ao PIB para além do efeito "mecânico" citado anteriormente. Por exemplo, a valoração da geração distribuída de eletricidade associada às famílias pode adicionar algo como R$ 20 bilhões, segundo minhas estimativas. Entram novas estimativas de jogos de azar (incluindo as bets) e de atividades ilegais, como contrabando e drogas. E o uso mais intensivo de notas fiscais eletrônicas e declarações do Simples tende a captar melhor os informais e as pequenas empresas. Nada disso muda a realidade: dívida, arrecadação, gastos e empregos seguem os mesmos. Muda apenas a régua —mas a régua importa. Com a dívida bruta projetada em 83% do PIB em dezembro deste ano, cada 1% de revisão para cima do PIB nominal reduz essa razão em 0,83 ponto. As taxas de crescimento em volume também tendem a subir, com reflexos no debate sobre produtividade e PIB potencial. Justamente por conta disso, incomoda o silêncio. Na transição metodológica de 2015, o IBGE promoveu seminários com usuários desde 2013 e publicou 21 notas metodológicas detalhadas. Desta vez, há uma única nota, de seis páginas, de outubro de 2025, que lista os temas a mudar, sem quantificar nada, e promete outras que, 11 meses depois, ainda não vieram. Deixar a divulgação do "novo PIB" para depois das eleições foi acertado. Mas notas técnicas não geram ruído eleitoral e a sociedade precisa entender o novo PIB antes que ele chegue, para que a revisão seja lida pelo que ela é: um avanço estatístico, e bem-vindo. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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