O que acontece quando sua carteira de investimentos deixa de incomodar?

O que acontece quando sua carteira de investimentos deixa de incomodar?

Quase tudo o que produz bons resultados no longo prazo cobra algum desconforto no curto prazo. Fazer atividade física exige esforço. Estudar significa abrir mão de parte do tempo livre. Poupar dinheiro significa adiar consumo. Nos investimentos, não é diferente. Uma carteira que nunca incomoda talvez também não esteja preparada para enfrentar cenários diferentes. O maior erro é imaginar que uma carteira diversificada deveria entregar bons resultados em todos os investimentos ao mesmo tempo, e que uma carteira bem diversificada vai ser sempre melhor que o melhor indexador no momento. Os ciclos de mercado fazem com que diferentes classes de ativos e indexadores assumam a liderança em momentos distintos. Há períodos em que o CDI se destaca. Em outros, os títulos indexados ao IPCA, os prefixados ou as ações brasileiras e internacionais assumem esse papel. Na verdade, diversificar significa justamente combinar ativos que respondam de formas diferentes ao mesmo cenário econômico, mas que mantenham potencial de retorno de longo prazo. Quando um determinado ambiente favorece uma classe de ativos, é natural que outra atravesse um período mais difícil. Essa não é uma falha da diversificação, é a principal característica. Imagine uma carteira composta por 80% em ativos pós-fixados atrelados ao CDI e 20% em títulos públicos indexados ao IPCA com vencimento de médio a longo prazo. Em um período de juros elevados, como o atual, é perfeitamente possível que essa parcela indexada ao índice da inflação apresente desempenho inferior ao CDI durante meses, ou até anos. Essa mesma carteira pode estar perdendo do CDI no agregado agora. Isso faz com que muitos investidores passem a questionar se ainda faz sentido manter aquele investimento. O incômodo é compreensível. Afinal, ninguém gosta de ver uma parte do patrimônio ficando para trás. O problema começa quando esse incômodo é confundido com erro. A função daquele investimento nunca foi superar o CDI em qualquer cenário. O papel dele é reduzir a dependência de uma única fonte de retorno e preparar a carteira para cenários diferentes dos atuais e que podem se materializar rapidamente. Se todos os ativos apresentam resultados semelhantes ao mesmo tempo, provavelmente estão expostos aos mesmos fatores de risco, ainda que tenham nomes diferentes. É justamente nesse momento que muitos investidores cometem um dos erros mais caros da vida financeira: Depois de meses observando um investimento render menos do que os demais, perdem a paciência, vendem a posição e direcionam os recursos para o ativo que apresentou o melhor desempenho recente. Acreditam estar corrigindo um erro, quando muitas vezes estão apenas trocando um investimento temporariamente impopular por outro que já incorporou boa parte das boas notícias. Pouco tempo depois, o cenário econômico muda. O investimento vendido volta a se destacar, enquanto o recém-comprado perde força. Sem perceber, o investidor transforma oscilações normais do mercado em perdas permanentes provocadas pelas próprias decisões. Existe ainda um aspecto pouco lembrado. Quando um ativo passa muito tempo decepcionando, o preço dele frequentemente incorpora esse pessimismo. Justamente por isso, as perspectivas futuras podem se tornar mais interessantes para quem investe olhando os próximos anos, não os últimos meses. Naturalmente isso não significa que todo ativo que caiu deva ser comprado, mas ajuda a explicar por que o desempenho recente, isoladamente, costuma ser um péssimo critério para tomar decisões. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha É claro que existe uma alternativa para quem não deseja conviver com esse tipo de oscilação. Concentrar a carteira em ativos atrelados ao CDI pode ser uma estratégia perfeitamente adequada para investidores com objetivos de curto prazo, baixa tolerância a risco ou que priorizam previsibilidade acima de retornos potencialmente maiores. O problema surge quando alguém deseja colher os benefícios da diversificação sem aceitar a principal consequência: diferentes ativos terão desempenhos diferentes em cada etapa do ciclo econômico. Não existe diversificação sem algum grau de desconforto. O preço de reduzir riscos no longo prazo é conviver, no curto prazo, com investimentos que temporariamente parecem ter sido escolhas erradas. Uma boa carteira não é aquela em que todos os ativos agradam o investidor o tempo todo. É aquela que continua fazendo sentido justamente quando alguns deles deixam de agradar. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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