Domingo elegemos como deputada estadual mais votada do país, com quase dois milhões de votos, uma mulher que defende que "qualquer homem tem o 'direito' de virar para mim e mandar que eu volte para a cozinha, se quiser"; que "um homem que não sabe ser agressivo quando precisa não é um grande homem"; e que não acha que o feminicídio exista. As três falas normalizam e transformam em direito aquilo que a lei já nomeou como crime e violência. A primeira converte em prerrogativa do parceiro o que a Lei Maria da Penha reconhece como violência psicológica: humilhar e controlar uma mulher. A segunda faz da agressividade um símbolo de brio. A terceira desmente a realidade: se o feminicídio não existe, as mulheres mortas por serem mulheres, 8 em cada 10 por companheiros ou ex-companheiros, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, morreram em vão. Deixaram de existir. Em cada uma dessas frases, e na lógica compartilhável que as faz circular nas redes, há uma anistia concedida de antemão. Não por acaso, a mesma urna deu ao partido dela, o PL, que encabeça a defesa da anistia aos condenados do 8 de janeiro, a maior bancada do Congresso. Quando defendemos publicamente quem defende o apagamento de crimes e violências, normalizamos a reprodução dessas mesmas violências em nossos ambientes privados. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 1 em cada 8 vítimas de feminicídio em 2025 tinha medida protetiva ativa, ignorada por homens que se julgam acima da lei. Os descumprimentos dessas medidas subiram 17%. Isso enquanto as mortes violentas em geral caíram ao menor nível desde 2012: só o feminicídio sobe. Há impunidade e anistia masculina nesses dados: para cada mulher assassinada, o país registra 502 ameaças. São tragédias de homens que, em nome do próprio brio e do que nomeiam como honra e família, se veem autorizados a acabar com a vida daquela que não submete mais a própria vida, o próprio amor e o próprio desejo a eles. Não sou ingênua: sei que os números de feminicídio sobem anualmente desde 2016, atravessando governos de orientações opostas, e não atribuo essa alta apenas à direita. Mas, assim como a deputada mais votada, muitos dos representantes de direita eleitos embalam o silenciamento, a submissão e o autoritarismo como condutas que organizariam a família. Se mesmo com políticas públicas de proteção à mulher a violência cresceu, o que esperar de um Legislativo que nega que o feminicídio exista e defende condutas violentas como papéis de gênero necessários? Para uma conversa complexa, é preciso levar em conta os valores e angústias que direcionam essa escolha. Ninguém vota (espero eu) diretamente no autoritarismo. A maioria busca nortes claros em tempos turvos. Esta é a promessa do conservadorismo: papéis definidos e, com eles, menos atrito entre os gêneros. Erich Fromm, em "O medo à liberdade", mostra que a liberdade sem vínculo produz angústia, e que uma das saídas é o mecanismo autoritário: submeter-se ou submeter. Um papel definido promete proteção, pertencimento e um lugar claro no mundo. O autoritarismo aparece, então, como contentor de angústia e raramente começa com violência. Ele se dá na normalização de uma dinâmica em que a mulher silencia para evitar briga e acredita, como a deputada eleita, que a submissão é a saída para uma vida com menos conflitos e sobrecargas. O psicanalista húngaro Sándor Ferenczi chama de desmentido a negação do trauma por quem deveria reconhecê-lo. Na anistia conjugal acontece algo mais cruel: a própria mulher desmente o que sentiu para que o vínculo continue possível. Retira a queixa, minimiza para a família, diz a si mesma que esse é o jeito dele. Quando elegemos representantes que gritam nas redes afirmações como essas, o controle, a imposição de poder e a agressividade embalada como cuidado deixam de parecer absurdos e voltam a ser prova de amor. Quem escolhe votar em costumes conservadores busca o fim da angústia e do desamparo, assim como eu, e talvez você, que defendemos valores democráticos, de respeito às diferenças e de tolerância como saídas possíveis. O que nos move é semelhante. Por isso convido quem pensa diferente de mim a refletir se os fins têm justificado os meios. O lugar mais perigoso para uma mulher continua sendo a própria casa. Em setembro, o New York Times publicou uma reportagem em vídeo com ex-tradwives: mulheres que construíram carreiras defendendo a submissão ao marido e hoje rejeitam o modelo depois de sentir na pele a desigualdade de poder, a violência doméstica e o custo de abrir mão da independência financeira. Anistia vem do grego amnestía, esquecimento, a mesma raiz de amnésia. Em "Recordar, repetir e elaborar", Freud mostra que aquilo que não pode ser lembrado retorna em ato. A anistia conjugal funciona como esquecimento imposto: a briga é encerrada antes de a mulher ser compreendida, muitas vezes com ela mesma pedindo desculpas para acabar com o assunto. E o que não foi elaborado volta com mais violência e letalidade. Não existe amor nem vida em sociedade possíveis enquanto desmentirmos e anistiarmos as violências públicas e privadas. E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
O que a vit�ria do conservadorismo, do machismo e da anistia diz sobre as derrotas conjugais
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