O pre�o da honestidade intelectual

O pre�o da honestidade intelectual

No Brasil, a posição política mais perigosa não é ser de esquerda nem de direita, mas ser honesto. Não no sentido moral da palavra e sim no intelectual, de olhar para os fatos, pesar os dois lados e dizer o que se vê, mesmo quando desagrada o próprio ambiente. Quem faz isso costuma levar críticas dos dois lados, sendo rotulado de fascista a petista conforme a narrativa desmontada. Dois casos recentes ilustram o descompromisso com a verdade. O primeiro refere aos pedidos de recuperação judicial do varejo, em que críticos do governo citam juros altos e retração do consumo, mas ignoram disputas internas e erros de gestão que reduziram garantias e impediram a adaptação ao mercado digital. O outro, o Bradesco, mesmo passando por um momento muito bom, decidiu fechar agências por motivo de reestruturação diante do avanço do banco digital. Ainda assim, narrativa desonesta fabrica uma crise fantasiosa para sugerir que a economia vai mal. A desonestidade não tem partido. A recusa em aceitar a realidade leva a esquerda a construir uma falsa narrativa de golpe em torno do episódio do impeachment de Dilma Rousseff (PT). A vida real demonstra que não há golpe quando um Tribunal de Contas aponta irregularidade e o Legislativo instaura o procedimento adequado, com participação das três funções do Poder e garantias preservadas. Chamar isso de golpe desmoraliza e descredibiliza o discurso da esquerda. A mesma esquerda repete hoje um padrão no campo fiscal, tendo o governo Lula trocado o teto de gastos por um arcabouço flexível que fura as próprias metas. A IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão técnico vinculado ao Senado, projeta R$ 148 bilhões fora do limite em 2026. Se a irresponsabilidade fiscal não está de fora deste partido, a mentira também não. Como já apontado, enquanto o PT é alvo de falsas narrativas, também costuma construir outras para se proteger. Quanto a Jair Bolsonaro (PL), mesmo catastrófico na pandemia, na economia e no trato com as instituições, a honestidade exige reconhecer que também foi vítima de discursos fanáticos negacionistas da realidade. O caso mais marcante é o da facada de 2018, um atentado real, com agressor preso até hoje, mas que ainda é tratado por muitos como encenação. Isso, porém, não absolve o bolsonarismo, que canalizou as mentiras e acompanhou a barbárie das próprias massas, reduzindo pessoas à cor, ao gênero ou à orientação sexual. A corrupção foi o último prego no caixão do bolsonarismo. Em um mandato, produziu inventário que envergonharia qualquer governo. Do superfaturamento da Covaxin à prisão de ex-ministro, passando por rachadinhas da família e tendo seu filho comprado 16 imóveis em dinheiro vivo. O fato curioso, que machuca os fã-clubes dos dois lados, é que o PT levou mais de uma década para acumular escândalos como mensalão e petrolão, enquanto o bolsonarismo criou esquema comparável em um mandato, o orçamento secreto. Há ainda um governo que quase ninguém reconhece, apontado como responsável pelos problemas do país, o de Michel Temer (MDB). Impopular, mas atuou com responsabilidade, recolocando o país no caminho do desenvolvimento com a PEC da responsabilidade fiscal e a reforma trabalhista. Essa herança, deixada por quem não buscava aplauso, permitiu ao governo seguinte surfar um bom, mas breve, momento econômico. Mesmo em meio a protestos quase diários, o Executivo sabia que, em vez de agendar motociatas contra os protestos, a função do presidente é de governar. O preço de ser honesto, no Brasil de hoje, é pago por quem se recusa a escolher o lado da mentira, por quem aponta os erros de uma gestão sem fechar os olhos aos da outra. Impeachment não foi golpe; os governos petistas não demonstram comprometimento com a responsabilidade nos gastos públicos; grande parte das falências e pedidos de recuperação estão ligados à má gestão empresarial; o governo Bolsonaro é mais corrupto que os petistas. Esse é o custo de manter aceso o debate político em que as ideias se constroem sobre a realidade e não sobre a fantasia. A honestidade intelectual não é uma virtude, mas uma exigência da civilidade democrática. Mesmo doendo no coração dos emocionados, vale a pena insistir no diálogo sério em busca de soluções baseadas na verdade. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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