O peso das normas sociais sobre as mulheres

O peso das normas sociais sobre as mulheres

"Entre as consequências das crenças culturais, nenhum aspecto é tão profundo quanto as normas de gênero discriminatórias. Costumes e crenças que promovem a inferiorização das mulheres em relação aos homens estiveram presentes nas mais diversas sociedades ao longo da história." Foi com esse trecho que a professora Siwan Anderson, da University of British Columbia, abriu sua palestra no 7º Encontro da Sociedade de Economia da Família e do Gênero (GeFam), realizado de 9 a 11 de setembro, na Universidad de la República, em Montevidéu. O encontro reuniu professores, pesquisadores, alunos e gestores que estudam desigualdades de gênero e dinâmicas familiares. O encontro começou com um pré-evento de mentoria organizado para alunos de graduação e de pós-graduação. Nos dois dias seguintes, foram apresentados artigos com evidências científicas sobre temas como normas de gênero, violência doméstica e desigualdade de gênero no mercado de trabalho, entre outros. Também tivemos sessões especiais e palestras de duas professoras convidadas, Siwan Anderson (UBC) e Inés Berniell (Universidad Nacional de La Plata), cujas apresentações se complementaram. Os ganhos de um encontro como esse vão do conhecimento e da troca acadêmica à formação de uma rede de contatos. Incluem também a experiência de conhecer novas universidades e lugares e de entrar em contato com outras culturas. Esse foi o primeiro encontro organizado pelo grupo fora do Brasil. Ao longo de sua palestra, Siwan discorreu sobre como, sob o amparo de crenças e costumes culturais, mulheres são submetidas a diferentes tipos de violência ao longo de suas vidas. Algumas nem chegam a nascer, em razão de abortos seletivos de fetos do sexo feminino, uma das causas do fenômeno conhecido como "mulheres desaparecidas". Mulheres são mutiladas, estupradas, queimadas e mortas, muitas vezes por seus próprios parceiros. Em outros contextos, a violência contra as mulheres é utilizada como arma de guerra. Até hoje, em algumas regiões, elas são impedidas de estudar, forçadas ao isolamento, ao casamento infantil e submetidas à tutela masculina. Mulheres não casadas, muitas vezes viúvas, também integram o fenômeno das "mulheres desaparecidas". Segundo Anderson e Ray, a cada ano, há aproximadamente 1,5 milhão de "mulheres desaparecidas" entre 30 e 60 anos, e 35% dessas mortes em excesso podem ser atribuídas ao fato de essas mulheres não serem casadas. A maior parcela concentra-se na Índia. No Sul da Ásia, crenças e costumes tornam as viúvas particularmente vulneráveis, pois são consideradas portadoras de má sorte e, por isso, deveriam ser evitadas. Para construir e decompor as normas de gênero entre países, a professora utilizou a base de dados "Folklore Data", que reúne mitos, lendas e contos populares de diferentes culturas. A partir dessas narrativas, é possível identificar elementos que atuam como proxies de crenças e normas culturais históricas. Os dados permitem distinguir diferentes vieses das normas de gênero, relacionados, por exemplo, à violência e à subordinação das mulheres. Algumas práticas, como a mutilação genital feminina, são perpetradas por mulheres. Houve avanços na redução desses vieses e na transformação das normas de gênero em determinadas regiões, especialmente na América Latina. Ainda assim, persistem muitas diferenças. As desigualdades de gênero no mercado de trabalho, na divisão dos cuidados e na matemática, a segregação ocupacional e a violência contra a mulher são questões que ainda exigem mudanças e políticas públicas. Que venham novos encontros do GeFam e novas pesquisas para embasar políticas públicas que contribuam para reduzir essas desigualdades. A felicidade tem muitas faces. Às vezes, ela se revela em pequenas situações, como no brilho nos olhos das alunas e dos alunos que participaram do evento. Todas Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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