'O Outro Lado das Redes' ressalta depend�ncia de vazamentos para conhecer big techs

'O Outro Lado das Redes' ressalta depend�ncia de vazamentos para conhecer big techs

Os dois principais filmes de ficção sobre o Facebook estrearam com 16 anos de diferença, intervalo suficiente para tirar Mark Zuckerberg do posto de protagonista e substituí-lo por um jornalista e sua fonte, a delatora Frances Haugen. Enquanto "A Rede Social" (2010) se debruçou sobre os primeiros dias do que viria a se tornar um dos maiores conglomerados de tecnologia do mundo, em "O Outro Lado das Redes", que estreou nesta quinta-feira (22), a cientista de dados revela como a plataforma impulsionou "rage baits" (conteúdos sensacionalistas e por vezes falsos concebidos para provocar raiva) ao priorizar o engajamento na linha do tempo dos usuários. Foi uma escolha algorítmica que esteve associada ao crescimento de grupos extremistas, a problemas de saúde mental entre jovens e ao recrutamento por cartéis do tráfico de drogas. A revelação dessas engrenagens por trás da empresa também lembra que a maior parte das informações relevantes sobre as plataformas digitais tem origem em vazamentos internos. Isso, no filme, dá ao jornalismo um aspecto heroico que destoa dos próprios dados apresentados no final —de que mais pessoas se informam pelas redes sociais do que por veículos noticiosos. O início do enredo lembra mais "Todos os Homens do Presidente", clássico de 1976 sobre o caso Watergate, que derrubou o então presidente dos EUA Richard Nixon, do que o primeiro filme sobre Zuckerberg. Aqui, um diretor de relações públicas ficcional, Teddy Marks, alerta os funcionários da empresa de que jornalistas buscam fontes até em aplicativos de relacionamento. Ele reforça que divulgar informações internas viola o contrato de trabalho. Os protocolos de confidencialidade da corporação evidenciam não apenas a proteção a segredos comerciais, mas também a falta de transparência com seus 3,64 bilhões de usuários (contando pessoas ativas em Facebook, Instagram e WhatsApp). A crítica consta em ações coletivas nos EUA e em ações civis públicas no Brasil. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões O interlocutor da chamada "whistleblower" do Facebook é o jornalista Jeff Horwitz (interpretado por Jeremy Allen White, de "O Urso"), repórter do Wall Street Journal premiado com o Pulitzer pela série de reportagens Facebook Files, que jogou luz sobre os efeitos nocivos das plataformas. A publicação dos documentos no jornal americano, em 13 de setembro de 2021, pressionou a empresa a alterar seu nome corporativo para Meta em 28 de outubro do mesmo ano, mudança apresentada oficialmente como parte de sua aposta no metaverso. Em um dado momento, Horwitz afirma que "é preciso dor para fazer gente rica mudar de ideia, ainda mais quando não é sobre dinheiro". A falta de transperência também esbarra em questões políticas. Ainda em 2021, no contexto dos desdobramentos do ataque ao Capitólio por apoiadores de Donald Trump, Zuckerberg bloqueou a conta do então ex-presidente e reduziu o alcance orgânico de conteúdos políticos no feed de notícias. Embora esses anúncios fossem contemporâneos ao fortalecimento da cobertura sobre desinformação no mundo, a ex-diretora de assuntos governamentais da empresa Katie Harbath afirma que o CEO da Meta altera a orientação da rede a cada ciclo eleitoral americano. No início de 2025, com o retorno de Trump à Presidência dos EUA, Zuckerberg desmantelou projetos de checagem, reduziu a moderação contra conteúdos discriminatórios e voltou a priorizar publicações políticas. "Nada é mais mercadológico do que a falta de coerência ideológica", disse o cientista político Felipe Gretschischkin, do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), em debate após a exibição do filme em São Paulo. Sem regulamentação, a empresa opera com ampla liberdade para buscar o domínio de mercado e o lucro dos acionistas. Desde 2021, as redes sociais seguem sem obrigação legal de prestação de contas nos EUA, onde ficam suas sedes. No Brasil, relatórios de transparência passarão a ser exigidos por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), diante da omissão do Congresso em aprovar uma legislação sobre o tema. O debate é oportuno no país, onde um vazamento revelado pela Folha mostrou que falhas da plataforma prejudicaram um candidato e favoreceram seu concorrente em uma disputa presidencial. Não fosse a publicação dos diálogos entre funcionários brasileiros e engenheiros baseados no exterior, o público saberia apenas que houve falhas técnicas de alcance global, como disse o comunicado oficial da empresa. Antes dos créditos finais, o diretor e roteirista Aaron Sorkin registra que as reportagens de Horwitz motivaram 47 ações coletivas nos EUA para reforçar a proteção de crianças nas redes. Em 26 de agosto, 29 dessas ações resultaram em acordo que estabeleceu multa de US$ 17 bilhões e compromissos da empresa, como o fim da rolagem infinita e o bloqueio noturno para menores de idade. No Brasil, o Instituto Alana pede ao Ministério Público que as medidas adotadas nos EUA sejam aplicadas no país, de modo a cumprir as diretrizes do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) no ambiente digital. Em painel ao fim da exibição na Mostra de São Paulo, o advogado da entidade, João Aguiar, disse que, apesar dos avanços, a big tech mantém lucros bilionários e segue submetida a menor supervisão do que outros setores relevantes da economia.

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