O 'm�todo Sheinbaum' para lidar com Trump

O 'm�todo Sheinbaum' para lidar com Trump

Na noite de 15 de setembro, diante de uma multidão no Zócalo, no centro da capital mexicana, a presidente Claudia Sheinbaum encerrou o tradicional "Grito da Independência" com uma defesa particularmente enfática: "Viva o México livre, independente e soberano". Soberania tornou-se uma das palavras preferidas da presidente enquanto seu governo faz concessões importantes aos Estados Unidos. E há outra data marcada no calendário de Sheinbaum: 3 de novembro. Até as eleições legislativas americanas, México e EUA correm para tentar fechar um acordo que reduza tarifas sobre setores importantes da economia mexicana. A negociação ajuda a entender o delicado equilíbrio construído por uma presidente de esquerda que mantém 69% de aprovação. Dentro de casa, Sheinbaum preserva e amplia programas sociais. Para fora, aliou-se aos grandes empresários mexicanos na defesa de seus interesses diante de Washington. E cedeu bastante a Trump. Reforçou a fronteira com milhares de integrantes da Guarda Nacional, ampliou a cooperação contra o narcotráfico e interrompeu o envio de petróleo a Cuba. Seu governo também transferiu 92 chefes do narcotráfico aos EUA por uma via extraordinária, fora dos procedimentos convencionais de extradição. Existe, então, um "método Sheinbaum" para lidar com Trump? Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Jorge Castañeda, ex-chanceler mexicano, responde com ironia. O método, diz, consiste em fazer praticamente tudo o que Washington pede, mas preservar para o público interno o discurso da soberania. A dependência é desigual. Mais de 80% das exportações mexicanas têm os EUA como destino. Mas Washington também precisa do México, hoje seu principal parceiro comercial em bens. À economia somam-se mais de 3.000 km de fronteira, narcotráfico, imigração e dezenas de milhões de pessoas de origem mexicana vivendo em território americano. É por isso que Trump não pode tratar o México como trata a Colômbia, o Equador, o Peru ou mesmo o Brasil. Para Washington, o México não é apenas América Latina. É parte de sua política doméstica. A relação passa por canais diferentes daqueles usados pelo secretário de Estado, Marco Rubio, em suas recentes viagens pela América do Sul. Comércio, migração, fronteira, inteligência e segurança mobilizam distintas áreas dos dois governos. Sheinbaum fala com Trump enquanto seus ministros negociam com autoridades e empresários americanos. Talvez sua habilidade esteja menos em ter descoberto uma fórmula para enfrentar Trump do que em saber jogar as cartas excepcionais que o México possui. Cede onde considera necessário, preserva algumas linhas vermelhas e transforma a soberania em elemento central do seu discurso interno. Até aqui, funciona. A mesma pesquisa que lhe dá 69% de aprovação mostra que 65% dos mexicanos avaliam de forma positiva sua condução da relação com os EUA. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Castañeda chama isso de concessão embrulhada em soberania. Raúl Benítez Manaut, do Observatório da Relação Binacional México-EUA da UNAM, vê pragmatismo numa relação de interdependência. As duas coisas talvez coexistam. Trump tem 3 de novembro no calendário. Sheinbaum ainda tem quatro anos de mandato pela frente. O desafio será continuar fazendo caber no mesmo governo uma agenda social de esquerda, os interesses do empresariado, as exigências de Washington e aquele México "livre, independente e soberano" que ela acaba de proclamar diante do Zócalo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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