"Não podemos nos dar ao luxo de perder esta. Portanto, não acho que seja o momento de fazer economias. […] Vamos despejar dinheiro nisso." A frase aparece em um memorando de 23 de julho de 1964 do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, revelando a operação clandestina destinada a favorecer Eduardo Frei nas eleições chilenas. A fim de descarregar a nação chilena dos maus olhados da esquerda, Washington lavou o igbá da candidatura de Frei com milhões de dólares abençoados. E ele venceu com maioria absoluta. Em tempos mais recentes, seria difícil surpreender um funcionário americano a retirar das ceroulas um maço de notas e a confiá-lo, entre piscadelas de olhos, ao tesoureiro salivante de uma candidatura. Os novos itinerários são mais decorosos. O dinheiro parte de uma agência governamental, atravessa fundações, organizações não governamentais e institutos privados, muda sucessivamente de nome e chega ao destino sob a forma respeitável de consultores, assistência técnica e promoção democrática. Na Sérvia, em 2000, o Congresso americano destinou US$ 14 milhões aos partidos da oposição e a organizações civis —uma soma providencial canalizada não às claras, mas através da engrenagem oficiosa de organizações intermediárias como o NED (National Endowment for Democracy) e o NDI (National Democratic Institute). Ambas foram fundadas em 1983 durante o governo Reagan. E sim, organizações e personalidades ligadas à direita brasileira receberam ou recebem dinheiro, serviços, formação e apoio logístico de organizações privadas sediadas nos EUA. Um exemplo é o das redes Atlas e Students For Liberty, amplamente disseminadas pelo Brasil. Esse apoio não equivale, entenda-se, ao financiamento rasteiro e direto a um partido político. Mas é uma forma de adestrar os quadros, polir as ideias e construir o grande palco onde se encena o debate eleitoral. Além disso, a Gettr, rede social dirigida por um ex-valete de Donald Trump, patrocinou conferências organizadas pelo instituto de Eduardo Bolsonaro que funcionavam como palcos da pré-campanha de Jair Bolsonaro em 2022. Quem escavar, vai encontrar minhoca. Os Estados Unidos podem também moldar o ambiente emocional de uma eleição, transformando o adversário em um monstro horrendo, uma praga moral, um perigo iminente para a sobrevivência da pátria. Foi isso que Washington fez na Itália, em 1948, ao apresentar a eleição como um combate apocalíptico entre a Civilização Ocidental e o Dragão Comunista. Antes, faziam-no por meio da mídia, igrejas e rumores; hoje, a feitiçaria opera no éter das redes digitais, onde influenciadores, especialistas e canais financiados do exterior ajudam a definir os temas e a legitimar narrativas. É precisamente esse mecanismo que a administração Trump acionou contra Lula ao declarar, já em 2025, que o governo brasileiro constitui uma "ameaça incomum e extraordinária" aos Estados Unidos, acusando-o de promover a "perseguição política" a Bolsonaro e descrevendo as instituições brasileiras como responsáveis por uma "deliberada deterioração do Estado de Direito". No mês passado, Marco Rubio afirmou no Senado que o Brasil não é um país amigável e equiparou-o a Cuba e Venezuela. Ou se execra na praça pública o candidato indesejado, ou se declara indigno e corrupto o próprio sistema de votação. Não seria surpreendente se a administração Trump enviasse ao Brasil um perito de ocasião, encomendando-lhe um relatório alarmista sobre a fragilidade das instituições brasileiras, e servindo a tisana à opinião pública global. Ops, era isso que estava prestes a acontecer. O governo dos EUA e seus aliados também podem exportar tecnologia política como sondagens milimétricas, grupos de estudo, gabinetes de segmentação e engenhocadas para medir, ao segundo, o bater de coração do eleitorado. Na Rússia de 1996, hordas de consultores americanos trabalharam nas penumbras para o trôpego Boris Yeltsin, munidos de inquéritos secretos, propaganda clandestina e aparelhos científicos que registravam o impacto de cada gesto e de cada adjetivo na sensibilidade da multidão eslava. A penetração de gigantes de big data e inteligência —como a Palantir— impõe riscos diretos à soberania eleitoral brasileira. Esta ameaça baseia-se na recolha preditiva de dados e na falta de transparência dos algoritmos das grandes empresas. Ao converterem o eleitorado em mapas de vulnerabilidade psicológica para microtargeting, essas arquiteturas tecnológicas transatlânticas adquirem capacidade para moldar a opinião pública, escapar à fiscalização da Justiça Eleitoral e transferir o poder decisório da soberania popular para os bastidores das corporações estrangeiras. Há mais. Ser recebido na Casa Branca, aparecer ao lado do presidente americano ou anunciar um acordo internacional durante uma campanha concede a qualquer mortal a figura instantânea de estadista e de parceiro confiável do grande senhor do mundo. Quando Trump recebe Lula, exerce diplomacia; quando recebe Flávio Bolsonaro como candidato presidencial, converte a Casa Branca em capital eleitoral. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Os EUA também influenciam eleições por meio da pressão econômica, oferecendo recompensas a quem favorecem e custos a quem pretendem enfraquecer. Em março de 1996, às vésperas de eleições em Israel, Bill Clinton surgiu de braço dado com Shimon Peres a prometer rios de dinheiro em cooperação antiterrorista. No Brasil, Trump tentou vincular o tarifaço àquilo que chamou de "perseguição política" a Jair Bolsonaro. O tiro, porém, saiu pela culatra. Em vez de enfraquecer o governo, a ingerência externa deu um novo alento a Lula e atribuiu a Bolsonaro a responsabilidade pelos prejuízos causados ao Brasil. A alma desencarnada do traidor Joaquim Silvério dos Reis, que em 1789 denunciou a Inconfidência Mineira ao governador português da Capitania de Minas Gerais, continua presente entre nós. Há ainda o expediente de declarar terrorista uma organização instalada no país adversário, convertendo depois esse país em cúmplice, protetor ou santuário da ameaça. A designação não autoriza por si só o uso da força, mas oferece à intervenção o vocabulário da legítima defesa. Foi o que a administração Trump fez em 2026 ao classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. A ferramenta mais discreta, porém, consiste em agir por intermédio dos atores da casa. Empresários, igrejas, organizações civis, jornais, acadêmicos recebem dinheiro, informação, contatos ou capacidade organizacional; em troca, oferecem legitimidade doméstica. Se até um Vorcaro qualquer conseguiu cooptar e dobrar jornalistas brasileiros para as suas mesquinhezes, por que carga de água haveríamos de crer que atores estrangeiros não poderão fazer o mesmo? Depois da derrota de 2022, assessores trumpistas discutiram com o círculo de Bolsonaro como contestar o resultado e transformar a alegação de fraude numa campanha política permanente, provando que, quando faltam ideias para governar a pátria, os comerciantes da política tentarão sempre vender a salvação para o pânico que eles criaram. Entre 2022 e 2026 poderá não haver diferenças. 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O modo americano de influenciar as elei��es brasileiras
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