O juro virou uma perversa unidade de medida de tempo

O juro virou uma perversa unidade de medida de tempo

O aniversário é comemorado uma vez por ano. A entrada no trabalho acontece, em geral, no mesmo horário. "Sextamos" sempre no mesmo dia. Foi assim que aprendemos a medir a passagem do tempo: com calendário e relógio, em anos, dias, horas e minutos. Só que existe outra medida, e ela costuma mandar em todas as outras: o juro. Os manuais de economia definem juro de várias formas, como o preço que se paga pelo uso do dinheiro emprestado. Daí soar estranho tratá-lo também como medida de tempo. E é o que ele é, na vida de muita gente: o senhor do tempo. Imagine duas empresas, uma na Alemanha e outra no Brasil, tomando um empréstimo equivalente a US$ 1 milhão para pagar em cinco parcelas anuais à taxa média de juros de seus países. O alemão capta a 4% ao ano; o brasileiro, a 20%. Ao fim do contrato, o alemão terá pago US$ 123 mil de juros. O brasileiro, US$ 672 mil. Essa diferença é, no fundo, uma diferença de tempo. Os dois receberam o mesmo tempo cronológico, cinco anos, mas não o mesmo tempo econômico. Pagando bem menos, o alemão tem calma para buscar o retorno do investimento. Pagando muito mais, o brasileiro tem pressa, porque cada ano lhe custa caro. É o senhor do tempo em ação. Numa empresa, tempo é a liberdade de fazer escolhas sem afobação. Contratar uma pessoa promissora que ainda precisa ser treinada. Investir numa linha de pesquisa de resultado imprevisível. Lançar um produto, descobrir que ele não funcionou e lançar uma segunda versão; quem sabe uma terceira. Esperar o mercado amadurecer, construir uma marca, conquistar clientes e desenvolver uma boa rede de fornecedores. O tempo cronológico na prancheta é o mesmo. O tempo econômico no banco, não. Captar a 4% é conquistar o direito de esperar. A 20%, cada erro custa mais, cada atraso aperta o caixa e o retorno precisa aparecer mais cedo. Além de consumir mais dinheiro da empresa, o juro alto estreita a margem que ela tem para sobreviver aos próprios erros. O juro é o que faz o crédito existir. Graças a ele, uma família compra hoje a casa que só conseguiria pagar à vista daqui a 30 anos. Coloca um carro na garagem apostando em salários que ainda não recebeu. O crédito antecipa escolhas. O problema começa quando o juro explode e o preço dessa antecipação passa a consumir uma fatia grande demais do futuro. É aqui que entra o governo. Nos 12 meses até junho, o setor público brasileiro acumulou déficit nominal próximo de 10% do PIB. Gastando de forma persistente mais do que arrecada, o governo disputa com todo mundo a poupança disponível. E quem disputa poupança empurra o juro para cima. Arrumar as contas públicas é devolver tempo ao país. Tempo para uma família pagar suas dívidas sem depender de programas especiais de refinanciamento. Para uma empresa desenvolver um produto e sobreviver a um escorregão sem recorrer à recuperação judicial. Desenvolvimento, inovação e infraestrutura exigem horizonte, e horizonte é exatamente o que o juro alto encurta. Se quisermos dar à economia brasileira tempo para agir, experimentar, corrigir e crescer, é pela causa fiscal do juro alto que precisamos começar. Compare Japão e Brasil. A dívida bruta japonesa supera 200% do PIB; a brasileira bateu 82%. Apesar de dever proporcionalmente duas vezes e meia mais, o Japão gasta com juros o equivalente a cerca de uma semana de sua produção anual. O Brasil, mais de um mês. Se essa conta fosse paga no começo do calendário, o japonês passaria a trabalhar para si na segunda semana de janeiro. O brasileiro, só em fevereiro. O que sobra do ano, depois dos juros, é o tempo que cada país tem para gerar riqueza. Essa dimensão da riqueza não entra na conta do Produto Interno Bruto. País rico é também o país que pode esperar. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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