O g�s cobra fatura, pol�tica e econ�mica, na Bol�via

O g�s cobra fatura, pol�tica e econ�mica, na Bol�via

Filas enormes nos postos de combustível tornaram-se parte da paisagem da Bolívia. O paradoxo é que elas se espalham por um país cujo modelo econômico recente foi construído justamente sobre o gás natural. A conta desse modelo chegou ao governo de Rodrigo Paz. Nos anos de bonança, o gás encheu os cofres públicos de dólares, financiou gastos e subsídios e ajudou a manter o câmbio. A produção, porém, vem caindo há mais de uma década, assim como as exportações, enquanto o Estado continuou gastando e subsidiando combustíveis que, cada vez mais, precisa importar. Menos gás vendido significou menos dólares entrando. E menos dólares tornaram mais difícil importar diesel e gasolina. As reservas internacionais foram consumidas, surgiu um mercado paralelo de câmbio e a escassez de combustível passou a prejudicar a produção e o transporte. Paz recebeu uma economia com déficit fiscal projetado em 9,1% do PIB neste ano e reservas internacionais de US$ 3,17 bilhões, das quais apenas US$ 52 milhões tinham liquidez. Agora tenta fazer em poucos meses um ajuste adiado por anos. O Congresso acaba de aprovar um acordo de US$ 1,9 bilhão com o FMI, que pode destravar outros US$ 5 bilhões de organismos internacionais. O programa prevê reduzir o déficit, conter seu financiamento pelo Banco Central, flexibilizar o câmbio e eliminar subsídios aos combustíveis. Na semana passada, Paz acabou com o subsídio ao diesel, cujo litro passou de 9,80 para 17,95 bolivianos (de R$ 4,14 a R$ 7,57). Julio Córdova, economista e sociólogo que dirige o instituto de pesquisas Diagnosis, considera que o problema pode estar menos na inexistência de gás do que na falta de recursos para explorar novas reservas. O fato é que a produção declinante drenou os dólares que sustentavam o modelo. Paz tenta agora atrair de volta investimentos externos —inclusive da Petrobras, com quem negocia uma retomada da exploração no país. O remédio tem efeitos colaterais: combustível mais caro encarece transporte, alimentos e produção. Por isso, a resistência já não se limita aos setores diretamente atingidos pelos combustíveis. Em maio e junho, Paz enfrentou 53 dias de bloqueios de estradas e avenidas. Os protestos foram reprimidos, e o governo decretou estado de emergência, prorrogado neste mês por mais 90 dias. Agora são professores e setores da classe média que voltam às ruas, enquanto cresce a resistência ao acordo com o FMI. Mas a mudança boliviana não é apenas econômica. Quando entrevistei Evo Morales em seu refúgio no Chapare, ele apontou para uma torre do antigo complexo antinarcóticos onde operava a DEA antes de ele expulsar a agência americana antidrogas do país, em 2008. "Aposto que, se a direita ganhar, a DEA volta", disse. Rodrigo Paz ganhou. A cooperação com a DEA, interrompida havia 17 anos, foi retomada. Paz também reabriu os canais com Washington e alinhou a Bolívia ao projeto regional de segurança de Donald Trump. FMI de volta na economia; DEA de volta na segurança. São faces distintas de uma mudança de ciclo num país que compartilha com o Brasil mais de 3.400 quilômetros de fronteira. Paz herdou uma crise produzida em anos, mas terá de cobrar sua conta em meses. E tenta fazê-lo num país em que a rua já mostrou que também participa das decisões econômicas. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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